sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Cabeça de Porco

Muitos acreditam que o mês de novembro encerrado entrará para a história. Ou já entrou: quando a polícia do Rio de Janeiro invadiu um conjunto de favelas na zona norte da cidade parecia que o impossível tinha finalmente se tornado possível: o tráfico não era mais indestrutível. Para uns, esses dias que se passaram marcam um sinal de grande esperança: os moradores dessas localidades, grande parte cansada da violência diária. A parte mais nobre da cidade talvez tenha tido também um sentimento semelhante: como se fosse esse o primeiro passo rumo a um Rio de Janeiro com menos tiro, menos morte e menos drogas. Outra parte da população talvez tenha visto os eventos com outros olhos: os fora-da-lei que se transformaram em dentro-da-lei (dentro de um inquérito, para ser mais exato).
Há pouco mais de cem anos, a mesma cidade assistiu a um processo semelhante: a destruição do cortiço Cabeça de Porco em 1892. Imortalizado por Aluíso Azevedo em seu livro O Cortiço, o Cabeça de Porco veio ao chão dois anos após a publicação do romance naturalista. Há, claro, muitas diferenças entre os dois episódios e - também - muitas semelhanças. Frutos da crise habitacional - ou inchaço populacional, como queiram liberais ou conservadores -, o cortiço e a favela são a imagem da pobreza e da ausência do Estado. Para o primeiro, a solução foi sua aniquilação; para o segundo, foi a retirada do poder paralelo e a preservação de suas construções.
Aluíso descreve seu cortiço como um organismo vivo. De fato, longe do Estado, o cortiço tinha vida própria: era a república do cortiço! - nas palavras do autor. Com o Estado, ele não existe mais: não aceitaram uma república dentro da outra. Talvez seja esse o ponto chave na história do Cabeça de Porco: a morte da república do cortiço quase se coincide com o nascimento da república do Brasil. Morte e nascimento ocorrem na mesma cidade; as mesmas pessoas testemunham os mesmos eventos. A pobreza do Rio sofre duas vezes: por perder seu rei abolicionista e por perder a sua casa. A república do Brasil lhes tirou tudo que tinham.
A invasão do Alemão parece ter ido por um caminho oposto: as casas continuam no lugar e os moradores parecem satisfeitos com a entrada do Estado. Faltou ao tráfico talvez construir a república das drogas, pois, sem ela, não havia do que sentir falta.
E se o Estado tivesse decretado a libertação das drogas? Teríamos o mesmo efeito? É difícil responder: já não temos mais um rei que enfrenta os barões nem um modelo novo para brincarmos de reconstruir a nação.




quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Palavras

Acho que estou sempre procurando por uma palavra. Como se, ao encontrá-la, fosse finalmente estar livre; como se definir fosse o último ato de salvação. Mas mesmo que encontrasse o modo certo de dizer, ou o modo certo de pensar... o mundo provavelmente seria o mesmo.

E se nada vai mudar, por que insistir nessa busca vazia? Criar um dicionário que nunca abro, pois estou apenas interessado nas perguntas.

Então desisto no meio da caminho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando foi
deixou uma solidão
que antes não estava

Ou revivi solidão
que sempre esteve
porque não sou sem ela

O erro de insistir no erro repetidas vezes
O prazer de repetir o erro insistentes vezes

Não encontrei um mundo construído
fitá-lo, devorá-lo; esse mundo destruído

Porque hei de sentir a falta do que me foi levado
E há de desperceber o pedaço que lhe foi dado

E agora não sei se foi a ele que amei
ou à dor de desejar alguém que nunca tive

Contudo sei que é essa a tarefa
que carregarei nos meus outros dias
são, afinal, esses também os mesmos dias

sábado, 25 de setembro de 2010

III

No dia em que você se foi, eu sabia que era para sempre. Talvez essa certeza tenha me impulsinado de volta, e feito eu recuar novamente. Porque muitas coisas seriam para sempre. Você seria - para sempre - quem eu gostaria de ter ao lado. E - para sempre - eu não poderia tê-lo novamente.
Foi sobre isso que pensei enquanto voltava para casa. Sobre as coisas que perdi... É estranho. Porque não me deixava lembrar das coisas que havia ganhado: naquele instante, nada ganhado tinha. Agora você já não estava mais ali. E o para sempre foi mais concreto do que nunca.
Quando entrei no quarto, deparei-me com a carta de aceitação em cima da cama. Eu havia me esquecido. Havia esquecido que deveria começar a arrumar as malas, a empacotar os livros, a pensar sobre o que fazer com os móveis. Ela tinha tanto valor naquela manhã... agora, horas depois, tudo já não é o que era. E não só a carta, como tudo parecia não ser mais o que era; eu não ter mais o que tinha.
Então, naquela noite, eu dormi em uma cama que não era mais minha. E tive sonhos que sabia que já não eram mais meus.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

II

Eu não tinha completa razão sobre aquele dia: algo era diferente. Eu apenas não sabia ainda o quê. Não consigo me lembrar exatamente se eu, de fato, percebera alguma coisa. A perspectiva temporal normalmente traz algumas intereferências.
Eu cheguei em casa, tomei banho e coloquei a comida para esquentar. Enquanto aguardava, sentei no sofá e comecei a assistir ao noticiário. Nada de novo. Tudo de novo. Foi quando resolvi pegar o jornal escrito - ainda os faziam - e folhear as páginas vazias.
Não era para eu ter encontrado. Esses avisos sempre ficam perdidos, no meio de espaços a que ninguém dá atenção. Não era para eu ter lido. Mas era. E por isso eu li. Seu nome. Depois de tantos anos, de tanta abstração, você estava concreto novamente. Mas não tão concreto: aparecia em palavras que anunciavam o seu recente fim. Tinha sido no dia anterior. Enquanto eu me preparava para entrar no mundo, você dele saiu. Mas não fornecia maiores detalhes; apenas o que realmente importava. Eu não me supreendi, devo dizer. De sua partida, sim; de você voltar para dentro de minha casa, com certeza; mas não por você ter deixado outros para trás.
Acho que esse mundo de pensamentos duraram poucos segundos. Um mundo em poucos segundos. Eu fiquei ali, parado. Olhei para o papel e olhei para o nada. E quando finalmente percebi que nunca mais o veria, comecei a chorar um choro desesperado e o meu mundo também, por um breve instante, acabou.
E o breve instante tinha razão de ser. Era preciso me recompor, ou perderia a última chance de ver você. Então, eu deixei a comida para trás, troquei de roupa e entrei no carro em direção ao endereço indicado. Acho que não havia percebido ainda que não foram seus pais que colocaram o aviso no portal; embora nunca tivesse ido à sua casa - mesmo que você lá não mais morasse - eu sabia que não poderia ser para onde estava indo. A casa nova não era porque você passara a morar sozinho, nem porque suas pais se mudaram. Só quando estava na porta da casa, eu finalmente me dei conta que aquela era a casa de sua família.
Havia um certo número de pessoas, o qual não consegui precisar exatamente. Eu foquei na mulher que chorava ao lado do caixão, junto com três crianças ao lado. Talvez não eram três crianças, ou apenas uma. Eu diria que nenhum tinha menos de dez anos ou mais de dezesseis. Não posso dizer que não havia imaginado essa possibilidade; até tinha. Mas talvez não tenha dado tempo suficiente para elaborar qualquer pensando mais detalhado sobre como seria o Filipe pai de família. Naquele instante, eu me senti extremamente deslocado. Não sabia exatamente o que fazer. Não me senti no direito de me aproximar mais. Eu precisa o ver... e os passos não eram possíveis. Eu tive de me confortar naquele instante de que você não era mais meu. De que você não era de mais ninguém. Então eu escolhi um lugar ao fundo para sentar e observá-lo de longe. Era tão mais perto do que tinha feito por toda vida depois que minha vida finalmente começou - e acabou.
Eu poderia estar apenas repetindo a mesma cena de cerca de dez anos atrás. Havia então muitos anos que havíamos nos separado - talvez uns doze ou treze. À epoca, eu havia acabado de voltar para o estado, depois de passar uma longa temporada construindo parte da vida que tenho hoje. A volta para meu lugar de origem pode ter despertado essa vontade de reconstruir - ou de descobrir. Então, logo que cheguei, resolvi procurar novamente por você.
Eu tinha certeza de que você estaria no mesmo lugar. Fazendo as mesmas coisas. Não foi difícil achar algo cuja perda não saiu da minha cabeça em nenhum instante. Mas talvez fosse melhor ligar antes... avisar de minha chegada espontânea. O choque de ouvir sua voz primeiro poderia amortecer um choque maior. O problema é que não estava preparado para algo ainda mais: a sua negativa. Acho que foi por isso que não tive coragem de continuar. De certa forma, queria que você permanecesse em minha mente como o fizera até então: estático. Porque o tempo teria passado para mim, mas você ainda seria o mesmo. E era exatamente isso que me confortava. Então eu desisti.
E repeti novamente dessa vez. Olhei para seu corpo ao fundo... não vi seu rosto. E quando percebi que começaram a notar minha presença, eu fui embora. Foi o tempo suficiente, contudo, para que notar que a mulher abraçada com aquelas crianças olhou fixamente para meu rosto. E, naquele instante, eu tinha a certeza de que ela sabia quem eu era.


sábado, 4 de setembro de 2010

I

Ainda é estranho voltar para uma casa vazia. Depois de tantos anos, ainda é estranho. Mas, ao mesmo tempo, é também ainda confortante. É difícil dizer exatamente em que aspecto tenho esse incômodo. Talvez seja o fato de que nada disso tenha realmente sido escolha minha; talvez seja porque tudo foi escolha minha. Não valeria a pena dissecar todos os fios desse tecido... não quero perdê-lo novamente.
É possível que hoje tenha sido o dia por que eu me preparei toda minha vida. O mundo finalmente seria meu. Ganhei a chance de estar onde quero, fazendo as coisas que quero. Não vou ser ingênuo de ressalvar que estou sozinho; sei que foi essa a condição do negócio. Não por menos, contudo, volta e meia, eu lembro de você: lembro dos dias que passamos do juntos, dos dias que nos separaram, e do dia que você decidiu que a culpa tinha sido minha.
Foi. Eu havia pedido que você se transformasse em uma outra pessoa para que eu pudesse ser a pessoa que sonhava; você não aceitou. Você saiu por aquela porta e nunca mais voltou. Por algum tempo, eu até pensei que manteríamos contato, que seríamos 'bons amigos'. Mas isso não foi possível. Acho que eu trazia dor de mais para você - não pelas lembranças exatamente, ou, ao menos, lembranças do passado; talvez eu estivesse sim provocando em você pensamentos sobre o futuro, os quais você não queria ter.
Quando eu fiquei de pé hoje, de frente àquele amontuado de pessoas certinhas, eu sabia que deles não fazia; e sabia que todos dividiam essa consciência. A beleza de tudo estava justamente nesse fato: ser diferente foi o que me trouxera até ali - até aqui. Foi uma visão incrível olhar no rosto daquela fila de juristas que sabiam que eu tinha sido quem os tirou de seus postos... eu! E mesmo assim, eu havia sido escolhido para os representar, para ser a sua voz. E imaginar que tudo começou por um acaso - ? - , e agora estávamos ali... a venerar o destruidor.
Eu não tinha ainda trinta anos quando resolvi escrever o livro. Não era meu primeiro, mas seria o meu primeiro para tantos leitores. E eu nem sabia que eles viriam a existir. Leitores... essa palavra é tão engraçada, porque, no fundo, somos leitores de apenas um autor: nada mais é possível. Esse leitor eu sempre tive; eu sempre o fui. Então talvez estivesse apenas dando fala a vozes que perderam suas cordas e precisam de um meio. Talvez a razão de tudo isso tenha sido apenas o fato de eu ter sido um meio - esse meio.
'Como se constrói o direito', contudo, só foi publicado muitos anos depois de escrito. Foi preciso que eu fizesse toda uma carreira, que 'ganhasse um nome' para que finalmente pudesse ser publicado. De início, eu mesmo que encomendei uma edição independente. Alguns colegas do trabalho chegaram a ficar com alguns, mas nada muito animador. Não seria no meio jurídico que o livro ganharia fama. Demorei um tempo para descobrir que eu não havia escrito um texto para o juíz ou para a promotora: mas sim para a esposa do juíz e para os filhos da promotora. Assim, não foi a crítica interna ao métier que me supreendeu, mas os elogios exteriores.
E depois dos elogios, veio a represália. Eu havia colocado em cheque um ponto que não o poderia ser - que não podia nem ser mencionado. Pelo menos, não por que alguém que vivia do Judiciário. O criatura não deveria atacar a sua origem. Diziam... não era o que eu imaginara. Na minha cabeça, contrariamente, relevar as contradições de um sistema - naquele caso - era justamente reforçá-lo, porque este sistema era sustentado por suas próprias contradições. Ninguém ofendiasse pela frase de que o Direito é dialético; mas já não seria permitido dizer que ele vivia dessa dialética. Porque o grande contribuição da Justiça não seriam as respostas que produzia, mas o mero fato de produzir respostas. Isso era o que importava.
Só que o grande problema era revelar esse segredo porque, a partir do momento em que o conteúdo das respostas não fazia diferença, todos poderiam fornecê-las. A reserva de mercado havia sucumbido.
Então eu sabia que não eram aqueles que me criticaram que agora estavam a me aplaudir. Eram outros. Foram os que sobreviveram ao deixar mais alguns entrarem. Eu também já não era mais o mesmo - ao menos, não em tudo. O meu trabalho também já não era mais o mesmo. Eu voltava, contudo, para a mesma casa fazia, e tentava reconstruir os mesmos sonhos vazios. Alguma parte de mim havia mudado, é verdade. Mas outra parte parmenecia exatamente a mesma. E naquele dia fiquei imaginando se seria justamente essa última a que eu realmente queria mudar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Sete Palmos

Há alguns dias, ouvi um comentário de meu amigo Rafael Hygino que me despertou a atenção. Após alguma frase minha - a qual não lembro exatamente - , ele disse algo do tipo: não entra na do Alexandre, ele tem um jeito estranho de enxergar a morte.

Não vou dizer que foi o seu comentário em si que me chamou a atenção. De fato, é possível que eu mesmo classifique meu modo de ver a morte como estranho. O que eu achei mais interessante foi o fato de minha colocação tê-lo marcado de alguma maneira, ao ponto de que ele relembrasse minhas palavras tempos depois.

Por isso, um pouco da motivação da escrita desse post seja ele - que tem se mostrado, realmente, como um assíduo inspirador de posts - , mas parte deve-se também ao seriado cujo título foi trazido no Brasil como 'A Sete Palmos'.

Embora a série tenha sido, com efeito, algo marcante, não chegaria ao ponto de falar que foi determinante para que eu mudasse o modo como via a morte. Poderia até dizer que seu papel foi resumido como mero expositor: as raízes já estavam lá desde muito antes.

A primeira coisa - e a mais importante - que gostaria de colocar é a seguinte: a morte salvou a minha vida. Colocado de uma forma mais clara, a morte passou a ser como um alívio, um limite que eu não sabia - ou percebia - que existia. A relevância da morte, assim, não é, para mim, seu evento, mas sim a sua mera possibilidade.

Quando eu era jovem, eu não feliz com a vida que tinha ganho. Eu sempre tive a impressão de que era menos, e que eu seria sempre menos. E que eu teria que desprender um esforço enorme, a cada dia que vivesse, que aos outros não seria exigido. Não era exatamente o fato de sentir atração por homens que fazia com que eu me sentisse menos - talvez isso fosse o menor dos problemas. O que realmente era aterrorizador era saber que eu jamais sentiria atração por mulher. E o era porque eu tinha a plena certeza que eu iria casar, ter filhos e sentir a todo momento a dor de ser - ou não ser - aquilo que meu coração dizia que eu não era.

A vida era para mim, então, um sofrimento eterno. Um sofrimento solitário - eu diria mais que solitário, pois a solidão às vezes nos faz bem; o sofrimento que sentia não era nada além de dor - , cujo o fim não existia. Alguns poderiam ler esse texto e pensar: claro que existia essa fim - e existe de diversas formas. É.. Mas, para mim, naquele momento, não existia: eu era muito jovem, e não tinha percebido ainda que a vida passava; eu não havia vivido o suficiente para saber disso. A sucessão dos anos de que as pessoas tanto falavam, as mudanças, o amadurecimento, o envelhicimento, o fim da vida... tudo isso eram palavras que eu não apreendia - eu podia definir, mas não podia verdadeiramente compreender.

Por tudo isso, a cada dia, eu precisava tomar a mesma decisão: continuar ou cessar a vida? O pouco que sabia tinha de ser o suficiente para eu decidir; os poucos segundos entre pular da sacada e permenecer estático precisam ser o bastante. E o foram... por muito tempo. Foram poucos anos que duravam mais do que - provavelmente - todo os outros que o seguiriam.

Quando tinha cerca de 14 anos, eu cansei finalmente. Não sei por quê, exatamente. E, para ser sincero, nem sei se realmente foi o cansaço que interrompeu o eterno círculo. Talvez não. Talvez o próprio passar do tempo tenha sido suficiente. Ou talvez eu tenha chegado a um ponto em que o dilema tenha mudado: continuar ou cessar as sucessivas decisões? Creio que poderia ter caminhado para qualquer um dos lados... mas, novamente, por algum acaso, eu bandei para o fim das decisões. E não porque eu havia chegado a uma resposta, mas porque enxerguei o erro na minha pergunta.

Eu não poderia jamais decidir entre continuar ou cessar a vida. Essa decisão já havia sido tomada há muito... e não por mim. A vida iria cessar. Finalmente eu percebera que meu sofrimento não era eterno. Iria acabar... E não apenas esse sofrimento... qualquer sofrimento. Tudo iria eventualmente cessar. E mesmo que eu esbarrasse com algo grande demais, ou difícil demais, eu poderia sempre - ou quase sempre - decidir por não ter de suportá-lo. Eu finalmente vi que a morte era o grande presente que a vida tinha me dado.

No instante em que ocorreu essa percepção, eu não tinha mais medo: eu estava livre. E com essa liberdade pude começar a vislumbrar tanto mais: finalmente vi que viver com medo não era exatamente viver, que tudo, em algum dia, teria de ser deixado para trás, que as escolhas que faço - no fundo - não fazem a menor diferença. E mesmo que tudo isso não fosse verdade, o fato de eu acreditar já era suficiente para mudar completamente a minha vida. Pois o modo como eu represento o mundo guia as minhas ações.

Então eu faço aqui referência a meu outro 'amig#' - ele vai entender essa grafia - Pedro Demenech, que talvez não entenda por que eu tenho interesse na história vista pelos olhos dos que a viveram e não naquela vista pelos olhos meus. Porque eu aprendi que na vida o que importa é aquilo em que acreditamos - e só isso - , o resto simplesmente não faz a menor diferença. E mesmo que acreditemos nas coisas que, de fato, não o são... também não importa: elas passam a existir simplesmente porque as cremos assim.

-----------------------------------------------------------------------------
A Sete Palmos (Six Feet Under) conta a história de uma família proprietária de uma funerária. Eu conheci a série no ano de 2006. Muitos dos episódios, assisti junto com meu antigo namorado Daniel, quando ainda morava com meu pai.

Em um desses dias, estávamos na sala vendo um episódio quando meu pai chegou. Ele puxou Daniel pelo braço e mandou gritando ele sair da minha casa. Eu disse que ele não poderia fazer isso; ele o fez assim mesmo. No mesmo dia, eu fui morar com minha mãe.

Um tempo depois, voltei, de uma viagem, para descobrir que Daniel não estava mais aqui. Ele se mudara para outro estado, sem terminar o namoro, sem dizer adeus. E eu o amava do mesmo jeito que amo hoje. Tive mais uma vez um sofrimento profundo. Já havia aprendido, contudo, que não havia decisão a se tomar.

Em 2009, eu aproveitei algum do tempo - que me resta - para re-escrever o final de nossa história, cujo texto eu publiquei nesse blog aqui.




segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Introdução (3)

Você talvez tenha sempre pensando que eu sou um homem do passado. Que remexe o passado; o dilacera; o remói. Confesso ser bem mais simples pensar assim. Pensar que sou o fruto das escolhas que fiz, dos dias que vivi, das dores que a vida trouxe.

Você, por outro lado, seria o homem do presente. Aquele que vive o momento; o surpreende. É talvez assim justifique as escolhas que faz agora - a falta delas talvez. Porque seria tão fácil passar os dias assim - e tão difícil, se viesse a saber.

Então seríamos um erro por estarmos em tempos diferentes. Eu estaria sempre a correr tentando alcançá-lo; e, quando chegasse, você já teria partido. Eu estaria sempre tentando remontar a vida que perdi, e você construir - em segundos - o que outros levam toda uma vida.

É... realmente isso explicaria tudo.

Entretanto, não creio que eu seja um homem do passado. Percebi que tudo que faço não é para consertar os erros que cometi, mas para evitar os que viriam. Descobri que vivo cada dia de minha vida olhando para o segundo que vem depois.

Esse é o problema. Eu olho para frente, e você olha para mim. E talvez não perceba que o único motivo que não viro meu rosto é para não perder o rumo da direção.

E você precisa de alguém que olhe para seu rosto. E eu preciso continuar olhando para frente... para não perder o rumo da direção.

Então, nas próximas páginas, mostrarei, em meu rosto, o horizonte para o qual a direção aponta.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Verdade 'Real': uma história em dois tempos

Todo professor de direito processual penal - normalmente um promotor público ou, às vezes, um juiz - gosta fazer comparações para explicar os institutos legais que regem o processo criminal. Falam de como o processo evoluiu desde a Idade Média, quando o sistema inquisitivo, associado com os ordários, fazia do processo um instrumento falho e injusto (estranha essa evolução que começa a partir dos primeiros séculos com dois algorismo: uma evolução quase que em função quadrática).

Mas não chegam ao ponto de não identificar falhas no processo atual. Um delas seria a suposta verdade 'real', que, embora almejada, torna-se alcançavel apenas na maior parte dos casos [sic]. Como remédio, apontam as ações revisionais, cabíveis até quando o réu há muito entre nós não está.

Mas algo é posto como certeza: o processo de hoje é muito melhor do que há 800 anos. Falam isso pensando nos processos promovidos pela igreja católica, por exemplo. Apontam meios de provas adivinhatórios, em que o réu contava com a sorte para se livrar de uma condenação. Mas exatamente o que querem dizer com 'melhor'? Melhor em que sentido? São tipos de processos diferentes, mas como compará-los? É preciso escolher um parâmetro e, a partir dele, fazer essa comparação.

O que gostaria de colocar aqui é o fato de que jamais vi um desses professores falarem da verdade 'real' nesses processos antigos. Agem assim, possivelmente, por considerar descartável a análise da verdade em um processo em que não se usam meios de provas modernos [sic]. O que aconteceria se usássemos essa verdade 'real' como parâmetro de comparação?

A verdade, em ambos os processos, é a certeza sobre os fatos ocorridos. Hoje, embora essa verdade seja admitidamente dispensada (no sentido de que o réu é condenado quando há um convencimento do juiz, ou seja, uma subjetividade), condena-se. Ou seja, mesmo sabendo que o erro judicial sempre é possível, ninguém deixa de ser condenado por conta dessa insegurança. Em termos de verdade 'real', o processo atual é reconhecidamente falho.

Mas isso nem sempre foi assim. Em tempos remotos, o réu só era condenado quando ficava provado que os fatos de que era acusado realmente aconteceram. Isso porque os meios de provas era considerados infalíveis (não estou aqui discutindo a tangibilidade da verdade, mas apenas a ontologia do processo penal). Quando um réu confessava um crime mediante tortura, por exemplo, isso era considerado prova certa de culpa, porque um réu só confessaria um crime se realmente o tivesse praticado. A ideia de que alguém poderia confessar um crime por qualquer outro motivo não fazia parte da cultura jurídica da época. Nesse sentido, o juiz jamais poderia condenar um réu porque estava convencido de algo, mas sim porque, de fato, sabe que as acusações são verdadeiras.

Assim, ao pensar na verdade 'real', o processo penal atual perde em muito para o processo inquisitorial medieval. Acha esquisita essa visão? Ela nos é estranha porque adotamos os nossos princípios jurídicos atuais para julgar o institutos jurídicos que não eram regidos por esses mesmos princípios. O mesmo ocorreria se um juiz medieval assistisse a um julgamento em que o réu é absolvido mesmo que se tenha provas contra ele - no caso de provas ilícitas, por exemplo - , ou porque já passaram 30 anos que o crime aconteceu - caso da prescrição. Esse juiz ficaria abismado com nossa capacidade de libertar os culpados. Mais espantando ainda ficaria ao ver um homem ser condenado sem nem ter confessado crime. Condenação sem confissão - como isso é possível? - pensaria - Sem confissão, não há crime! Não duvido que um professor de Bolonha do século XIII, se tivesse a chance, falaria sobre as atrocidades que os homens de 800 anos no futuro cometerão ao julgar os réus acusados de um crime, condenando inocentes e libertando criminosos.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Introdução (2)

No dia 13 de agosto, eu entrei em um avião para voltar ao nosso passado. Cada passo que dava trazia de volta uma lembrança, revivia um momento recorrente - não eram os primeiros, mas eram definitivamente mais intensos.
Eu olhava pela janela e via as nuvens; lembrei que havia cedido o lugar para você porque queria que apreciasse seu primeiro vôo; você reclamou do barulho, da pressão nos ouvidos, do espaço pequeno. Quando saltamos, não precisamos fazer perguntas: eu já havia pesquisado todo trajeto que deveríamos fazer. Mas acho que isso não percebeu - ou não achou que fosse tão importante.
No sábado, eu andei de ônibus sozinho. Lembrei dos lugares que fomos - porque você queria ir. Lembrei dos detalhes que me contou, dos elogios que fez a alguns monumentos. De noite, jantei no mesmo restaurante cuja comida você não gostou.
Dormi na sala em que dividimos o colchão. E lembrei da briga que tivemos e de como eu não queria que minha vida mais fosse para alimentar a sua. Então, pensei nas coisas que não perdi ao perder você, e das coisas que jamais terei a chance de descobrir.
Quando voltei, passei algumas horas no aeroporto esperando a hora do avião partir. Entrei em uma livraria e lembrei do livro que você queria ler. Continuei a andar e encontrei um livro que eu queria ler. E logo em seguida já sabia o livro que eu deveria escrever.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Introdução

Eu sei que meus passatempos não são como os seus. Na verdade, nem sei se os possui. Afinal, sou eu quem precisa passar as horas, contar os dias: porque o meu prometido está sempre em um período logo mais para frente, enquanto o seu já passou - ou nem sonha em existir.
Então, quando você saiu por aquela porta - pela minha porta - , eu sabia que seria eu quem remoeria o passado e substituiria os momentos-ser pelos os por-que-não-foi. E sabia também que seria um processo sem fim - embora fosse esse seu fim - ; a contradição resolver-se-ia na sua imprescindibilidade.
Mas foi quando andava por um aeroporto que, ao acaso, descobri um solução - embora saiba que solução não há. Era um livro. Vi na capa o nome de um autor querido que, depois de muitos anos de silêncio, resolveu contar uma história de amor: um casal que, ao acaso, encontrava-se após trinta anos de uma súbita separação. Resolveram, por meio de uma troca de mensagens, tentar entender o que os distanciara.
É algo assim que resolvi fazer aqui. Percebi que há mais de uma forma de remoer a mesma dor. Não tentarei mais desvender um passado que não me é compreensível: inventarei um futuro que possa tocar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A palavra do dia é... Cidadania

O que você diria se algúem chegasse para você e perguntasse: você sabe o que é cidadania? É possível que você tente começar a frase "cidadania é..." umas duas ou três vezes e não consiga, de fato, terminá-la. Mas a mesma pessoa pode facilitar as coisas um pouco e mudar a pergunta para: o que faz um bom cidadão? Essa é um pouco mais fácil, não concorda? Um bom cidadão - diria você - é aquele que conhece seus direitos, que cumpre seus deveres, que obedece as leis, que tem orgulho de seu país... E talvez você continuasse listando muitas coisas que viriam à sua cabeça e, mesmo assim, a resposta para a primeira pergunta permaneceria um grande mistério. Essa história toda, contudo, não é para assustá-lo, ou deixá-lo achando que não sabe se expressar. Definir a palavra cidadania é realmente uma tarefa complicada. Faça um teste: chegue em casa e repita a mesma pergunta para seu pai, ou sua mãe (ou mesmo os dois ao mesmo tempo). É bem provável que você veja um adulto completamente sem-graça que, ao menor sinal de uma distração sua, corra em busca do dicionário mais próximo a fim de evitar pagar um mico daqueles.
Agora, você me pergunta: por que é tão difícil afinal definir o que seja cidadania, se essa é uma palavra que a gente fala e ouve o tempo todo? Vou contar um segredo para vocês: há um bom tempo, os historiadores perceberam que o homem tem a estranha mania de usar palavras já em uso para dar nome a coisas novas. É o que acontece, por exemplo, com a palavra rede. Se eu digo rede, você muito provalvemente pensa em um monte de computadores ligados por diferentes fios ou em seu notebook com o MSN aberto, com o qual você conversa com seus amigos - mesmo os que foram fazer intercâmbio para o outro lado do mundo. Mas, quando eu digo a mesma palavra para a sua avó, ela irá pensar em um pedaço de pano que a gente amarra entre suas pilatras para poder dormir, ou em um longo emaranhado de fio que os pescadores usam para tirar milhares de peixes do mar. É exatamente isso que acontece com a palavra cidadania: já tem bastante tempo que o homem usa essa palavra para falar de coisas diferentes que aconteceram com a humanidade e, quando a ouvimos, todas essas coisas misturadas aparecem na nossa cabeça e a gente fica um pouco perdido. Por isso, quando alguém fizer a pergunta para você, seja bastante esperto e diga: de qual cidadania você está falando? Ou melhor, cidadania de quando? De onde?
Hoje eu vou falar para vocês um pouco sobre o que os homens chamavam de cidadania no Brasil do século XIX. Aí você pergunta: mas como você pode saber o que homens que já nem vivem mais achavam que era cidadania? Os historiadores inventaram um jeito de fazer isso: a gente pega livros escritos na época, estuda as leis que foram criadas, as cartas que nossos pensadores trocavam, os discursos que proferiam... e com tudo isso a gente consegue imaginar - porque historiador tem que ser, antes de tudo, bastante imaginativo - o que eles pensavam quando ouviam a palavra cidadania. E, ao fazer isso, podemos fazer uma comparação com o que as pessoas pensam hoje, ver o que mudou e o que continua parecido. Fazendo isso, o historiador ajuda as pessoas a não caírem no mesmo erro de novo, ou a resgatar algo muito bacana que podemos ter deixado para trás.
O século XIX foi realmente especial para nosso país: foi quando nos separados do reino português e nos tornamos um império; e, logo lá no finalzinho, escolhemos nos tornar uma república. Sabe por que é tão importante estudar esse período? Porque foi nele que aprendemos a ser o que somos, foi então que tomamos muitas decisões que marcam até hoje a nossa vida. Quando o Brasil virou um país em 1822, ele ganhou logo depois uma constituição. Eu digo ganhou porque era a primeira vez que isso acontecia. Até então, o rei governava soberano; ele que ditava o que se podia e o que não se podia. Influenciados pelas ideias das grandes revoluções - principalmente a francesa e a americana - os brasileiros queriam ser os donos do poder, mesmo que tivessem um rei. A gente, na verdade, gostou muito de ser um império. É comum a gente pensar que um rei é sempre aquele cara que manda em tudo, que pode tudo. Mas não é bem assim. É possível ter um rei que tem de obedecer as leis, porque se não o fizer, corre o risco de ser expulso do trono. Foi isso que aconteceu com o Brasil: criamos uma monarquia constitucional.
A nossa constituição (de 1824) trouxe muitas coisas novas. Muita gente costuma falar mal dessa carta, dizer que foi outorgada por Dom Pedro I. Bom, é verdade, ela foi outorgada (isso que dizer que não foram os deputados e senadores que a escreveram, mas sim o imperador e seus assessores). Mas pense bem: até então, não tínhamos constituição nenhuma! Ter uma - mesmo que outorgada - já era uma novidade muito grande. Seria estranho se Dom Pedro não lutasse para manter as regras como ele achasse apropriado, afinal, era também era um homem, tinha suas ambições, seus medos e desejos. A verdade mais importante - acho eu - é que essa carta (podemos chamar a constituição de carta) era muito avançada para sua época - ou seja, os pensadores do outros países assim achavam - e previa coisas que não existiam em outros países, coisas novas, que envolviam a chamada participação popular. Isso era algo muito novo: o rei não tomaria mais as decisões sozinhos; a assembleia geral, formada por senadores e deputados, que iria criar as leis.
Outra novidade muito grande que nossa constituição imperial trazia era o fato de o rei não decidir mais quem deveria ocupar certos cargos. Um dos exemplos mais marcantes foi o cargo de juiz de paz. Hoje, quando a gente fala em juiz de paz, logo pensamos em casamentos. Naquela época, contudo, casamento era coisa de igreja e juiz de paz era o novo magistrado que julgava a maioria dos processos. E o que tinha de especial esse juiz? Esse juiz era especial porque ele era eleito. Isso mesmo: eram as pessoas da comunidade que decidiam quem seria o juiz que julgaria seus processos. E tinha mais: era ele quem cuidava das ruas, da segurança, organizava as eleições e conciliava aqueles que procuravam o judiciário.
Mas o que o juiz de paz tinha a ver com a cidadania? Ora, os brasileiros cidadãos eram que escolhiam esse juiz. Até então o comum era o rei decidir quem seriam todos magistrados. E para ser juiz era preciso ser cidadão: era isso que dizia nossa Constituição. Assim, se você perguntasse para um brasileiro o que era ser um bom cidadão, ele poderia responder: ser um bom cidadão é poder votar no juiz ou mesmo virar o juiz da minha comunidade. Isso não era à toa: os antigos magistrados eram, em sua maioria, portugueses e os brasileiros tinham muito medo de que eles tomassem decisões que ajudassem Portugal a reconquistar sua domínio sobre o Brasil. Com a mudança, os novos juízes seriam brasileiros e seriam os próprios brasileiros quem os escolheriam.
É muito comum a gente ouvir falar mal dessas nossas primeiras eleições. Dizer que eram tumultuadas, desonestas e que pouca gente podia votar por causa de uma restrição aos que não tinham uma renda mínima. Quem faz esse tipo de crítica sem dar maiores detalhes está sendo, na verdade, bastante injusto. Isso porque é muito fácil para nós dizer o que é bom ou ruim sobre algo que aconteceu no passado, mas sobre o que não temos muita informação. É preciso se informar para não ficar repetindo bobagens de quem, no fundo, não reflete muito sobre as coisas que diz. Temos que lembrar que foi no século XIX que tivemos nossas primeiras eleições, estávamos experimentando coisas novas. E, principalmente, estávamos ainda discutindo o que exatamente significava votar; o que exatamente significava ser cidadão. Exigir que alguém tivesse uma renda mínima não era nada estranho para nossos antepassados, pelo contrário. O salário de um deputado não era alto, quem não tivesse uma boa fonte de renda não conseguiria sobreviver na capital carioca com o que ganhava. Ao longa da história, ser cidadão, na maioria das vezes, implicava em ter riqueza o suficiente para poder dispor de tempo para participar da política. Ademais, o Brasil era um dos países com maior porcentagem de eleitores em todo mundo(13%)*; foi apenas em 1881 que resolvemos reduzir esse número para cerca de 1% da população.
Na minha singela opinião, não creio que as condições de elegibilidade de nossa antiga constituição representam algo pior do que temos hoje: se antes era preciso ter dinheiro para entrar na política, hoje se entra na política para se ter dinheiro. É por isso que eu olho com muita admiração para nosso passado e vislumbro as formas criativas que nós brasileiros inventamos para construir nossa nação, para definir o que é cidadania para a gente. É claro que cometamos muitos erros - muitos - mas nada mais esperável. Afinal, pessoas erram e acertam todo dia; o mais importante é saber reconhecer os erros e admirir os acertos.

--------------------

Esse texto foi produzido como minha contribução para um desafio proposto por meu amigo Rafael Hygino para escrevermos um texto "voltado para alunos do Ensino Médio, que seja preciso o suficiente, mas que também não seja maçante." Essa história começou com um debate sobre um famigerado livro e terminará - espero eu - em uma gostosa discussão sobre como ensinar história. Para saber mais sobre o juiz de paz imperial, sugiro a leitura de minha dissertação de mestrado, disponível no seguinte endereço http://juizdepaz.x10.mx/ .

*
De acordo com o censo de 1872, 13% da população total, excluídos os escravos, votavam. Segundo cálculos do históriador Richard Graham, antes de 1881 votavam em torno de 50% da população adulta masculina. Para efeito de comparação, observe-se que em torno de 1870 a participação eleitoral na Inglaterra era de 7% da população total; na Itália, de 2%; em Portugal, de 9%; na Holanda, de 2,5%. O sufrágio universal masculino existia apenas na França e na Suíça, onde só foi introduzido em 1848. Participação mais alta havia nos Estados Unidos, onde, por exemplo, 18% da população votou para presidente em 1888. Mas, mesmo neste caso, a diferença não era tão grande. (Carvalho, José Murilo de. Cidadania no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileiro, 2002. p.31)

sábado, 7 de agosto de 2010

Guinness Book - Edições infinitas

Em post anterior, mencionei meu hábito de brincar com a matemática. Entre as brincadeiras, adorava inventar problemas - o que normalmente era um pesadelo para a maioria dos meus colegas, era causa de horas de autoentreternimento para mim. Assim, como já fazia na infância, aos 21 anos pensei na seguinte pergunta: por que é sempre possível quebrar um recorde?
A indagação envolveu um pressuposto que parece (ou parecia-me) óbvio: um corredor sempre poderá percorrer um trecho de 100 metros em menos tempo do que alguém - incluindo ele mesmo - o fez anteriormente. Essa constatação em nada parecia surpreender. Mas... como explicá-la? Como explicar que não há um limite para a velocidade que um corredor pode alcançar. Por que sempre poderá existir um homem mais alto do que o homem mais alto que já viveu; por que a expectativa de vida humana poderá sempre aumentar; por que os computadores sempre poderão processar mais rapidamente; ou seja, por que o Guinness Book sempre poderá editar uma nova versão a cada ano?
A resposta para esse problema envolve transferir uma noção quase metafísica - o infinito - para um objeto do mais cotidiado: a régua. De fato, o infinito existe na régua, existe no relógio, existe no velocímetro, existe na balança.
O infinito não foi criado quando o homem percebeu que algumas coisas poderiam não ter fim: ele foi criado quando o homem começou a medir as coisas. Até porque, de certo modo, tudo no mundo físico é finito: o número de grãos de areia na praia, o número de anos que a Terra possui, o número de estrelas no céu. Poderia até arriscar em dizer que o universo é finito: a ideia de ele não possuir limites só existe porque os cientistas não conseguiram definir ainda o que seria o limite do universo. E os limites da capacidade intelectual humano - sim, ela também possui limites - explica a definição de infinito.
Se as coisas são todas finitas... o que seria o infinito? O infinito, na verdade, nada mais do que a ausência de limites tangíveis. Em nosso dia-a-dia, ele é alcançando muito facilmente pela noção de divisão. Por exemplo, pense na distância entre Vitória e Tokyo - 18,300 Km. Agora pense na metade dessa distância - em Addis Abeba, na Etiópia, por exemplo. Viaje mais a metade até o Cabo Verde - sim, não precisa ser um percurso retilínio. Continue divindindo sucessivamente até chegar a uma distância, digamos, de 1 metro. E agora? É possível dividir? É claro, você diria: 50 cm. E dividir de novo? Por quê não? O ponto é: quantas vezes podemos dividir essa distância? É isso mesmo: infinitas vezes. E por que podemos fazer essas infinitas divisões? Afinal, a distância entre Vitória e Tokyo possui limites claros e soma seus pouco mais de 18 mil quilômetros.
Podemos fazer essas infinitas divisões porque o homem inventou os números. Os números que associamos a objetos de nosso mundo - cinco carros, três quilos, setenta metros - só existem de fato em nossa cabeça. E por isso, por uma ficção numérica, sempre podemos criar um número menor do que outro.
Pense em um número bem pequeno. Que tal 0,00001? Coloque mais um zero e terá um número ainda menor: 0,000001. E sim... você pode sempre criar um número menor. Ou um número maior! Os números na verdade são meras aproximações. A distância entre Vitória e Tokyo jamais poderia ser medida - exatamente - pelos números; aliás, por UM número. Sempre haveria um outro mais preciso. Tudo que fazemos com a matemática do mundo real é mera aproximação. É por isso que os recordes sempre podem ser quebrados: eles de fato não existem! Nunca sabemos quão rápido foi um corredor, ou um nadador.. apenas aproximamos em nossa cabeça - por meio de três ou quatro algorismos - a grandeza de sua velocidade. E como sempre podemos criar uma fraçãozinha a mais - adicionando outros três ou quatro algorismos - o próximo recorde está logo ali na esquina - ou lá longe em Tokyo.




quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Is my gaydar broken?

This is my very first post in English. Correction: my very second. It feels, however, as if it actually was, for this time I gave some more thought on what I am writing. I'd like then to begin by explaning my title choice. It was indeed the reason I flopped the language of my blog. I learned this word 'gaydar' when I was watching the comedy series 'Will&Grace'; in fact, the characters repeatedly used this expression, as one's sex orientation status was always on the spotlight (when it was not crystal clear, of course!)
Sometimes, I catch myself trying to be certain of things. I do that quite often, actually. And I'm afraid that's so in that I'd like to be able to rely on myself without much hesitation. I do realise that's not really possible - possibly. But if I think it through, it is not too difficult to see I may have a point. There's no actual way to be sure of things - many philosophers have taught us that -, though some would disagree. I wouldn't care for them, really. Righteousness would stop me from being so proposturous, but that's too far-fetched an idea. Be as it may, I'll still try to figure out one's orientation. Had I something better to do, I wouldn't be here writing this very post.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O mito do Censo

O IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - iniciou ontem o 12º Censo Demográfico Brasileiro. Para nós, meros espectadores dessa operação gigantesca, o Censo resume-se em atender - ou não! - um recenseador nossa porta - para os que porta têm - e responder a algumas perguntinhas cujo conteúdo - sigiloso - será armazenado via pequeno dispositivo digital de mão.
A grande preocupação de alguns talvez seja conseguir identificar os 'verdadeiros' funcionários do órgão - algo me diz que o número de falso recenseadores intentores de cometimento de alguma atitude criminalmente tipificada irá aumentar vertiginosamente nos próximos meses-, ou talvez a incerteza de responder alguma pergunta sobre orientação/opção/histórico/doença sexual.
Particularmente, ao falar em censo, penso nos historiadores que nascerão nos séculos que nos seguem. A riqueza das fontes a eles disponível é de causar inveja a qualquer companheiro de profissão do século XX, que busca, em arquivos empoeirados, informações escassas - escritas por algum clérigo, possivelmente - para formar um panorama que ele supostamente acredita existir. Inveja maior ainda tenho eu da liberdade que ele terá para olhar para esse nosso mundo, sem estar bombardeado pelas crenças desestruturantes do tempo em que vivemos.
É realmente fascinante imaginar que podemos apreender o mundo por meio de números e gráficos em formato de pizza. Mais fascinante ainda é sonhar em apreender esse mundo sem o menor sentimento de obrigação de tentar mudá-lo: eis a grande dádiva do historiador. Afinal, como mudar um mundo que o tempo deixou para trás? Seria, de fato, confortante tal possibilidade; pena ter o historiador de viver em um mundo para poder olhar para outro que não o alcança mais.

domingo, 1 de agosto de 2010

Liberal ou conservador?

Os adjetivos dicotômicos 'liberal' e 'conservador' aparecem bastante frequentemente no discurso; seja nas ruas, nos impressos ou nos virtuais. Insiro-os na longa lista de palavras que, de tanto repetidas, parecem perder o sentido. O que afinal quer dizer o político quando acusa o oponente de ser conservador? E que nova onda é essa de filhos que consideram os pais liberais demais? No primeiro caso, talvez estejam referindo-se àqueles que resistem a mudanças (como se mudanças fossem dar atenção a nossos receios). No segundo, talvez estejam comentando sobre pais ausentes, ou pais com hábitos geralmente associados aos jovens...
Mas esses são somente alguns exemplos banais[sic]. Coloquei-os aqui apenas para começar uma discussão que resgate esses sentidos perdidos; até porque percebo-me muitas vezes a usar essas qualificações e não gostaria de tropeçar nas minhas próprias palavras. Comecemos então pelo mais rejeitado[sic]: conservador. O caminho mais fácil talvez seja pensar na derivação: conservador é aquele que conserva. Nesse sentido, não poderia ser aquele que não deseja a mudança, mas sim aquele que, de fato, não mude. Sou definitivamente um conservador; ao menos, em algum sentido. No presente momento, por exemplo, estou ouvindo a um álbum que ouvi durante toda a adolescência. De fato, meu gosto musical foi velado antes de completar os vinte anos. É bem possível que essa seja a razão de não gostar de rádio.
E liberal? Não parece ser o que liberta, nem o que é livre. Seria liberal aquele que ama/deseja a liberdade? Mesmo um pouco cético, gosto de me enxergar como amante da liberdade: amante do direito de ir e vir, de dizer o que pensa, de acreditar no debate, e - por que não? - do direito de mudar. Possivelmente nasci e morrerei um liberal - mesmo que considere a liberdade (e qualquer coisa, na verdade) relativa e questionável. Sou filho do século XX e culpo-o pelas minhas descrenças nas minhas próprias crenças.
Entrem outros, Houaiss chama de liberal de progressista - colocando esse como oposto de conservador. E chama esse quem defende o tradicional. Parece uma boa saída.
Particularmente, prefiro quebrar a dicotomia. Prefiro ser um liberal conservador: aquele que ama a liberdade sem nenhuma pretensão de mudar.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O fardo da História

Quando eu era a criança, costumava brincar de encontrar novas formúlas matemáticas para problemas que minhas professoras diziam que não havia como se resolver. Eu me lembro que passei muito tempo tentando descobrir uma forma de saber se um número era primo, que não fosse usando aquelas divisões sucessivas intermináveis - que, ao menos, para mim, na época, soava como um método arcaico demais. Fazia contas, substituições, hipóteses... tudo por conta de uma ideia fixa de encontrar uma caixinha mágica em que, uma vez depositado um número qualquer, saísse uma das duas respostas (sim ou não), sem grandes complicações. Também me lembro de quando tentei encontrar uma forma de resolver equações de segundo grau que não usasse aquela regra de decomposição segundo a qual o aluno tinha que fazer suposições para encontrar uma produto de equações equivalente à primeira. Até consegui achar uma fórmula que funcionava para alguns casos, para descobrir meses depois que um tal de Bháskara tinha encontrado muito anos antes uma solução muito mais simples...
É verdade; eu sempre fui um apaixonado pelo números. Eu tinha uns 3 anos, eu acho, e sabia escrever os números só até 10, ou 11, e me lembro que um dia sentei na mesa da cozinha com um papel de presente virado ao avesso e um lápis, e pedi para minha tia Ana ir ditando para mim como escrever os números maiores. Eu dizia: o que vem depois do onze? Ela dizia: doze. E eu dizia: como se escreve? E ela dizia: um e depois dois. E eu escrevia 1-2. E o que vem depois de doze? E essa história continua por muito tempo - pelo menos, pareceu-me muito tempo-, e talvez, com sorte, tivéssemos chegado até o trinte, ou o quarenta.
Eu também me lembro que, quando estava na oitava série, - naquela época, o último ano do ginásio - peguei um livro de matemática do segundo grau e comecei a estudar. Eu acordava todo dia às cinco horas e ficava, durante um pouco mais de uma hora, estudando, um capítulo por dia, lendo e fazendo os exercícios. Em pouco mais de dois meses, tinha terminado toda matéria de matemática do segundo grau. Tentei fazer o mesmo com a química e a biologia; em vão, eu não conseguia entender sozinho o que lia naqueles livros.
Essa foi mais ou menos a vida até meus vinte e poucos anos. Fiz a graduação em um curso que me ensinou exatamente a fazer aquilo que tanto procurava quando menino: construir uma caixinha em que, inserido um número, ela devolvesse uma resposta sim ou uma resposta não. Nada mais simples.
Eu não sei por que exatamente, mas comecei a procurar outras caixinhas com que brincar. Eu tinha vinte e dois anos e resolvi começar a ler livros de história. Como era de se esperar, eu tentava fazer com a história exatamente aquilo que fazia com os números: encontrar fórmulas fixas que pudessem me predizer um acontecimento subsequente. Tudo que eu queria era decorar um evento-semente e, por meio da dedução, toda a história da humanidade poderia ser revelada como no derrubar das peças enfileiradas de dominó. Em vão. Contudo, isso não era motivo para me desanimar; pelo contrário. Eu ficava fascinado em como aqueles homens que escreviam a história conseguiam descobrir formas incríveis de juntar acontecimentos e descrever com tanta precisão algo tão distante de minha realidade. Eu os considerava verdadeiros bruxos e morria de inveja por não saber aquela fórmula mágica que os possibilitava de desvender os mistérios do passado com tamanha eficiência. Eu tinha a certeza que jamais poderia aprender como desvender a fórmula mágica que revelasse os segredos da História. As minhas professores de escola diziam: História não se decora, se aprende. E eu queria tanto aprender a aprender.
Passei muito tempo para descobrir que a único coisa que os professores de história esperavam de mim era que eu escrevesse um texto longo, com muitas informações detalhadas e que fizesse algum tipo de link entre elas - qualquer link, mas preferencialmente algum que ele julgasse mais rebuscado. E, fazendo isso, consegui passar no vestibular de Direito. Ou, acho que foi assim.
Foi muito difícil para mim abrir mão das minhas caixinhas. Porque aprendi que entrar no mundo História era justamente inverter o caminho que tinha percorrido por toda a vida: eu não deveria encontrar soluções para os problemas dados, mas sim encontrar problemas em um mundo que já era me dado. E o mundo, nesse caso, é uma solução. É a solução. Digo isso, porque o mundo é único e, por mais que se pense que podemos mudá-lo, ou que poderíamos tê-lo mudado, o caminho percorrido de fato - até onde sei - é um só.
Não sei se consegui passar o sentimento que essa história me desperta. Estou fazendo referência à segurança. O mundo dos números sempre foi-me muito seguro, porque eu não dependia de tentar imaginar o que outra pessoa queria que eu imaginasse. O mundo dos números é como o nosso mundo: é um caminho só. Mesmo que você ache que esteja em um caminho diferente - muitos professores de matemática insistem em dizer: há inúmeras meios de solucionar um problema -, o seu destino é um só. E se você chegou lá sem tropeço, a chance de alguém criticá-lo é quase nula.
Talvez o fardo da História seja justamente o fato de não haver essa destino. Os filósofos da história até tentaram - ou ainda tentem - dar à História essa segurança encontrada em outros mundos, mas a maioria dos historiadores tenderão a acreditar - atualmente - que essa é uma tarefa fadada ao fracasso.
Ou talvez o fardo da História seja a busca de algum destino; ou, ao menos, um destino por etapas; ou, quem sabe, um leque limitado de destinos. Os links que os professores tanto procuram nos textos dos alunos - que alguns historiadores atuais chamam de laços - são apenas objetos de desejo atuais inteiramente substitutíveis por outros cuja enumeração Hayden White (de quem eu roubei o título deste post) já exemplificou.
Eu, particularmente, prefiro não carregar esse fardo. A beleza da História esteja talvez justamente em sua discussão estética, na liberdade de escolher seus meios e destinos, na infinidade de possibilidades que o historiador têm para descrever o mesmo cenário, explicar o mesmo acontecimento e - por que não? - criar seus próprios acontecimentos. Mas, para isso, seria preciso admitir que os cenários são criados, e os acontecimentos também. Perderiam os professores de história seu emprego se isso acontecesse? Ou melhor, se essa discurso ganhasse mais vozes? Os textos que escrevemos são filhos de seu tempo, porque somos filhos de nosso tempo e talvez a própria História só exista como filha de uma história que os historiadores insistem - para minha felicidade - em contar.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Everything's fucked up

I keep telling myself I should make the right move; that I should overthing about it all. But I can't help feeling guilty about it; about planning every step. As if things could only be real if they flowed like a river.
However, the worst of it may not even be this guilt; is may be the uselessness of this whole planning. For the steps exist only in my head; they are there because I imagine so.
What happens then if I don't share these thoughts? Things will come and go - I'll built an epic out of it - and the world will just remain the same. How silly of me, really.

sábado, 17 de julho de 2010

Todos Helen Keller

Eu estava conversando com uma amiga há algumas semanas sobre como eu sentia falta de escrever. Eu passei a maior parte de minha adolescência e início de vida adulta (entre 21 e 23 anos, eu diria - apenas no sentido de que eu considero esse o início de minha vida adulta) escrevendo muito frequentemente. Em algumas épocas, não houve dias sem palavras escritas; em outras, o lapso poderia ser um pouco maior; mas a verdade é que escrever sempre fez parte de minha vida. E fez talvez não pelo ato em si - ou até pelo ato em si -, mas porque tem como resultado uma prática que nunca abandonei (mesmo após ingressar mais adentro da vida adulta): aquela de reler o que escrevia. Reler não no dia seguinte, ou no mês seguinte; mas possivelmente anos depois. Reler palavras que já nem me recordo que havia escrito tem um efeito que considero psicodélico: a recorrência do mesmo sentimento, ou do mesmo pensamento. É como se um ato da vida que até então parecia ser único pudesse ressurgir tempos depois, mostrando-se não morto, mas adormecido; efeito esse que talvez seja o que esteja procurando agora garantir para anos futuros, aumentando as suas chances de ocorrência com o aumento de número de palavras que coloco no papel.
Quis colocar essa pequena introdução porque me sinto um pouco na obrigação de explicar por que me virei para um meio cibernértico desta vez (normalmente estava restrito a folhas ou editores de textos); porque parece um meio seguro de guardar por mais tempo - não me esquivarei de fazer cópias das páginas para maior segurança - esse alucinógeno que um dia deu título a um dos livros que mais gosto de rever.
Mas, entrando mais diretamente no assunto deste post, queria falar um pouco sobre uma ideia que volta e meia coloco em um texto. Normalmente uso a metáfora de um feto na barriga da mãe; hoje, contudo, vou usar uma diferente. Nem sei se posso classificar como metáfora - porque acredito ser representação bem mais direta (caso possa usar esses termos juntos) - de passar a minha ideia do que seja a realidade.
Creio que muitos que lerem este texto já devam ter ouvido falar de Helen Keller. Possivelmente a maioria não. Conheci essa fascinante personagem no ano passado, após assistir ao filme The Miracle Worker, que trata da história de como uma menina que ficou cega e surda aos 9 meses de idade aprende, no final da infância, a utilizar a linguagem. Uso o termo linguagem aqui no sentido de uma forma de comunicação complexa, que se manifesta concretamente por meio das línguas.
O que mais me fascina na história de Helen não é exatamente o fato de ela ter escrito livros, ou cursado faculdade; mas sim o modo como sua existência nos mostra o quanto somos capazes de negligenciar. Digo isso porque Helen desenvolveu inúmeras formas de comunicação com sua professora Anne Sullivan; formas inimagináveis para a maioria das pessoas que ouvem e/ou enxergam. Helen podia, por exemplo, compreender o inglês falado, usando o tato para sentir o movimento da face e do pescoço e a vibração do ar saindo da boca. Quando adolescente, ela já era capaz de, usando sinais soletrados, literalmente escrever 80 palavras por minuto nas mãos de Anne, de modo que essa era a forma mais eficiente de comunicação entre as duas.
Mas por que estou falando de Helen? Creio que posso usar seu mundo para descrever como eu um dia pensei o meu. Tive o seguinte raciocício: enquanto criança e sem uso da linguagem, Helen desconhecia o fato de que era surda e cega. Sua vida, até onde poderia imaginar, em nada era diferente da vida daqueles que a cercavam. Entretanto, tudo isso mudou no que em que ela aprendeu a se comunicar, chegando a um ponto em que pôde compreender que era diferente: ela aprendeu que existia o som - embora o som não pudesse escutar - e existia a imagem - embora a imagem não pudesse ver.
Agora, e se Helen não fosse a exceção? E se fóssemos todos Helen Keller? Talvez não exatamente Helen Keller; quero dizer, e se a visão e a audição não fizessem parte de nosso conjunto de sentidos? Como seria se o mundo fosse mundo, mas as pessoas não pudessem nem ver ou enxergar. Não quero entrar aqui em detalhes muito minunciosos; apenas queria focalizar na ideia central da percepção de mundo; ou seja, da realidade. Tomando por base a história de Helen, não creio que nós humanos - cegos e surdos - não pudéssemos desenvolver a linguagem - e consequentemente muitas línguas. Talvez usaríamos, como Helen e Anne, a palma das mãos para conversar, o papel furado para escrevermos nossos livros e tantas outras formas que são possíveis, mas que não existem porque simplesmente decidimos usar outros métodos de comunicação. Não creio que não poderíamos construir casas, carros, tecnologia, literatura, arte, guerra, religião... Quero dizer que, embora humanos diferentes, não perderíamos nossa humanidade.
Agora, o mais incrível desse cenário não é o fato espantoso de que a visão e a audição - ou qualquer outro sentido - não nos é imprescindível; para mim, o mais incrível é que, nesse mundo cego e surdo, o som não deixaria de existir, a luz não deixaria de existir, o mar azul, os pássaros cantando, o cachoeira estridente... tudo estaria ainda lá. Em nossas línguas, entretanto, não existiriam a palavra som, a palavra luz, o adjetivo azul, o verbo cantar, o adjetivo estridente. Os passáros cantariam, mas não poderíamos jamais imaginar que o fizessem; chamaríamos seu som de 'pescoço tremendo' ou 'jato de ar'. Mas canto para nós não poderia existir.
Eu acredito que é muito possível que tudo isso não seja um mero exercício imaginativo; creio que provavelmente somos todos Helen Keller. Mas não sabemos disso; porque não temos como o fazer. Porque não há uma Anne Sullivan para nos ensinar que existe um mundo para além dos sentidos que a natureza nos deu.

Vídeo sobre Helen Keller