segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Introdução (3)

Você talvez tenha sempre pensando que eu sou um homem do passado. Que remexe o passado; o dilacera; o remói. Confesso ser bem mais simples pensar assim. Pensar que sou o fruto das escolhas que fiz, dos dias que vivi, das dores que a vida trouxe.

Você, por outro lado, seria o homem do presente. Aquele que vive o momento; o surpreende. É talvez assim justifique as escolhas que faz agora - a falta delas talvez. Porque seria tão fácil passar os dias assim - e tão difícil, se viesse a saber.

Então seríamos um erro por estarmos em tempos diferentes. Eu estaria sempre a correr tentando alcançá-lo; e, quando chegasse, você já teria partido. Eu estaria sempre tentando remontar a vida que perdi, e você construir - em segundos - o que outros levam toda uma vida.

É... realmente isso explicaria tudo.

Entretanto, não creio que eu seja um homem do passado. Percebi que tudo que faço não é para consertar os erros que cometi, mas para evitar os que viriam. Descobri que vivo cada dia de minha vida olhando para o segundo que vem depois.

Esse é o problema. Eu olho para frente, e você olha para mim. E talvez não perceba que o único motivo que não viro meu rosto é para não perder o rumo da direção.

E você precisa de alguém que olhe para seu rosto. E eu preciso continuar olhando para frente... para não perder o rumo da direção.

Então, nas próximas páginas, mostrarei, em meu rosto, o horizonte para o qual a direção aponta.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Verdade 'Real': uma história em dois tempos

Todo professor de direito processual penal - normalmente um promotor público ou, às vezes, um juiz - gosta fazer comparações para explicar os institutos legais que regem o processo criminal. Falam de como o processo evoluiu desde a Idade Média, quando o sistema inquisitivo, associado com os ordários, fazia do processo um instrumento falho e injusto (estranha essa evolução que começa a partir dos primeiros séculos com dois algorismo: uma evolução quase que em função quadrática).

Mas não chegam ao ponto de não identificar falhas no processo atual. Um delas seria a suposta verdade 'real', que, embora almejada, torna-se alcançavel apenas na maior parte dos casos [sic]. Como remédio, apontam as ações revisionais, cabíveis até quando o réu há muito entre nós não está.

Mas algo é posto como certeza: o processo de hoje é muito melhor do que há 800 anos. Falam isso pensando nos processos promovidos pela igreja católica, por exemplo. Apontam meios de provas adivinhatórios, em que o réu contava com a sorte para se livrar de uma condenação. Mas exatamente o que querem dizer com 'melhor'? Melhor em que sentido? São tipos de processos diferentes, mas como compará-los? É preciso escolher um parâmetro e, a partir dele, fazer essa comparação.

O que gostaria de colocar aqui é o fato de que jamais vi um desses professores falarem da verdade 'real' nesses processos antigos. Agem assim, possivelmente, por considerar descartável a análise da verdade em um processo em que não se usam meios de provas modernos [sic]. O que aconteceria se usássemos essa verdade 'real' como parâmetro de comparação?

A verdade, em ambos os processos, é a certeza sobre os fatos ocorridos. Hoje, embora essa verdade seja admitidamente dispensada (no sentido de que o réu é condenado quando há um convencimento do juiz, ou seja, uma subjetividade), condena-se. Ou seja, mesmo sabendo que o erro judicial sempre é possível, ninguém deixa de ser condenado por conta dessa insegurança. Em termos de verdade 'real', o processo atual é reconhecidamente falho.

Mas isso nem sempre foi assim. Em tempos remotos, o réu só era condenado quando ficava provado que os fatos de que era acusado realmente aconteceram. Isso porque os meios de provas era considerados infalíveis (não estou aqui discutindo a tangibilidade da verdade, mas apenas a ontologia do processo penal). Quando um réu confessava um crime mediante tortura, por exemplo, isso era considerado prova certa de culpa, porque um réu só confessaria um crime se realmente o tivesse praticado. A ideia de que alguém poderia confessar um crime por qualquer outro motivo não fazia parte da cultura jurídica da época. Nesse sentido, o juiz jamais poderia condenar um réu porque estava convencido de algo, mas sim porque, de fato, sabe que as acusações são verdadeiras.

Assim, ao pensar na verdade 'real', o processo penal atual perde em muito para o processo inquisitorial medieval. Acha esquisita essa visão? Ela nos é estranha porque adotamos os nossos princípios jurídicos atuais para julgar o institutos jurídicos que não eram regidos por esses mesmos princípios. O mesmo ocorreria se um juiz medieval assistisse a um julgamento em que o réu é absolvido mesmo que se tenha provas contra ele - no caso de provas ilícitas, por exemplo - , ou porque já passaram 30 anos que o crime aconteceu - caso da prescrição. Esse juiz ficaria abismado com nossa capacidade de libertar os culpados. Mais espantando ainda ficaria ao ver um homem ser condenado sem nem ter confessado crime. Condenação sem confissão - como isso é possível? - pensaria - Sem confissão, não há crime! Não duvido que um professor de Bolonha do século XIII, se tivesse a chance, falaria sobre as atrocidades que os homens de 800 anos no futuro cometerão ao julgar os réus acusados de um crime, condenando inocentes e libertando criminosos.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Introdução (2)

No dia 13 de agosto, eu entrei em um avião para voltar ao nosso passado. Cada passo que dava trazia de volta uma lembrança, revivia um momento recorrente - não eram os primeiros, mas eram definitivamente mais intensos.
Eu olhava pela janela e via as nuvens; lembrei que havia cedido o lugar para você porque queria que apreciasse seu primeiro vôo; você reclamou do barulho, da pressão nos ouvidos, do espaço pequeno. Quando saltamos, não precisamos fazer perguntas: eu já havia pesquisado todo trajeto que deveríamos fazer. Mas acho que isso não percebeu - ou não achou que fosse tão importante.
No sábado, eu andei de ônibus sozinho. Lembrei dos lugares que fomos - porque você queria ir. Lembrei dos detalhes que me contou, dos elogios que fez a alguns monumentos. De noite, jantei no mesmo restaurante cuja comida você não gostou.
Dormi na sala em que dividimos o colchão. E lembrei da briga que tivemos e de como eu não queria que minha vida mais fosse para alimentar a sua. Então, pensei nas coisas que não perdi ao perder você, e das coisas que jamais terei a chance de descobrir.
Quando voltei, passei algumas horas no aeroporto esperando a hora do avião partir. Entrei em uma livraria e lembrei do livro que você queria ler. Continuei a andar e encontrei um livro que eu queria ler. E logo em seguida já sabia o livro que eu deveria escrever.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Introdução

Eu sei que meus passatempos não são como os seus. Na verdade, nem sei se os possui. Afinal, sou eu quem precisa passar as horas, contar os dias: porque o meu prometido está sempre em um período logo mais para frente, enquanto o seu já passou - ou nem sonha em existir.
Então, quando você saiu por aquela porta - pela minha porta - , eu sabia que seria eu quem remoeria o passado e substituiria os momentos-ser pelos os por-que-não-foi. E sabia também que seria um processo sem fim - embora fosse esse seu fim - ; a contradição resolver-se-ia na sua imprescindibilidade.
Mas foi quando andava por um aeroporto que, ao acaso, descobri um solução - embora saiba que solução não há. Era um livro. Vi na capa o nome de um autor querido que, depois de muitos anos de silêncio, resolveu contar uma história de amor: um casal que, ao acaso, encontrava-se após trinta anos de uma súbita separação. Resolveram, por meio de uma troca de mensagens, tentar entender o que os distanciara.
É algo assim que resolvi fazer aqui. Percebi que há mais de uma forma de remoer a mesma dor. Não tentarei mais desvender um passado que não me é compreensível: inventarei um futuro que possa tocar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A palavra do dia é... Cidadania

O que você diria se algúem chegasse para você e perguntasse: você sabe o que é cidadania? É possível que você tente começar a frase "cidadania é..." umas duas ou três vezes e não consiga, de fato, terminá-la. Mas a mesma pessoa pode facilitar as coisas um pouco e mudar a pergunta para: o que faz um bom cidadão? Essa é um pouco mais fácil, não concorda? Um bom cidadão - diria você - é aquele que conhece seus direitos, que cumpre seus deveres, que obedece as leis, que tem orgulho de seu país... E talvez você continuasse listando muitas coisas que viriam à sua cabeça e, mesmo assim, a resposta para a primeira pergunta permaneceria um grande mistério. Essa história toda, contudo, não é para assustá-lo, ou deixá-lo achando que não sabe se expressar. Definir a palavra cidadania é realmente uma tarefa complicada. Faça um teste: chegue em casa e repita a mesma pergunta para seu pai, ou sua mãe (ou mesmo os dois ao mesmo tempo). É bem provável que você veja um adulto completamente sem-graça que, ao menor sinal de uma distração sua, corra em busca do dicionário mais próximo a fim de evitar pagar um mico daqueles.
Agora, você me pergunta: por que é tão difícil afinal definir o que seja cidadania, se essa é uma palavra que a gente fala e ouve o tempo todo? Vou contar um segredo para vocês: há um bom tempo, os historiadores perceberam que o homem tem a estranha mania de usar palavras já em uso para dar nome a coisas novas. É o que acontece, por exemplo, com a palavra rede. Se eu digo rede, você muito provalvemente pensa em um monte de computadores ligados por diferentes fios ou em seu notebook com o MSN aberto, com o qual você conversa com seus amigos - mesmo os que foram fazer intercâmbio para o outro lado do mundo. Mas, quando eu digo a mesma palavra para a sua avó, ela irá pensar em um pedaço de pano que a gente amarra entre suas pilatras para poder dormir, ou em um longo emaranhado de fio que os pescadores usam para tirar milhares de peixes do mar. É exatamente isso que acontece com a palavra cidadania: já tem bastante tempo que o homem usa essa palavra para falar de coisas diferentes que aconteceram com a humanidade e, quando a ouvimos, todas essas coisas misturadas aparecem na nossa cabeça e a gente fica um pouco perdido. Por isso, quando alguém fizer a pergunta para você, seja bastante esperto e diga: de qual cidadania você está falando? Ou melhor, cidadania de quando? De onde?
Hoje eu vou falar para vocês um pouco sobre o que os homens chamavam de cidadania no Brasil do século XIX. Aí você pergunta: mas como você pode saber o que homens que já nem vivem mais achavam que era cidadania? Os historiadores inventaram um jeito de fazer isso: a gente pega livros escritos na época, estuda as leis que foram criadas, as cartas que nossos pensadores trocavam, os discursos que proferiam... e com tudo isso a gente consegue imaginar - porque historiador tem que ser, antes de tudo, bastante imaginativo - o que eles pensavam quando ouviam a palavra cidadania. E, ao fazer isso, podemos fazer uma comparação com o que as pessoas pensam hoje, ver o que mudou e o que continua parecido. Fazendo isso, o historiador ajuda as pessoas a não caírem no mesmo erro de novo, ou a resgatar algo muito bacana que podemos ter deixado para trás.
O século XIX foi realmente especial para nosso país: foi quando nos separados do reino português e nos tornamos um império; e, logo lá no finalzinho, escolhemos nos tornar uma república. Sabe por que é tão importante estudar esse período? Porque foi nele que aprendemos a ser o que somos, foi então que tomamos muitas decisões que marcam até hoje a nossa vida. Quando o Brasil virou um país em 1822, ele ganhou logo depois uma constituição. Eu digo ganhou porque era a primeira vez que isso acontecia. Até então, o rei governava soberano; ele que ditava o que se podia e o que não se podia. Influenciados pelas ideias das grandes revoluções - principalmente a francesa e a americana - os brasileiros queriam ser os donos do poder, mesmo que tivessem um rei. A gente, na verdade, gostou muito de ser um império. É comum a gente pensar que um rei é sempre aquele cara que manda em tudo, que pode tudo. Mas não é bem assim. É possível ter um rei que tem de obedecer as leis, porque se não o fizer, corre o risco de ser expulso do trono. Foi isso que aconteceu com o Brasil: criamos uma monarquia constitucional.
A nossa constituição (de 1824) trouxe muitas coisas novas. Muita gente costuma falar mal dessa carta, dizer que foi outorgada por Dom Pedro I. Bom, é verdade, ela foi outorgada (isso que dizer que não foram os deputados e senadores que a escreveram, mas sim o imperador e seus assessores). Mas pense bem: até então, não tínhamos constituição nenhuma! Ter uma - mesmo que outorgada - já era uma novidade muito grande. Seria estranho se Dom Pedro não lutasse para manter as regras como ele achasse apropriado, afinal, era também era um homem, tinha suas ambições, seus medos e desejos. A verdade mais importante - acho eu - é que essa carta (podemos chamar a constituição de carta) era muito avançada para sua época - ou seja, os pensadores do outros países assim achavam - e previa coisas que não existiam em outros países, coisas novas, que envolviam a chamada participação popular. Isso era algo muito novo: o rei não tomaria mais as decisões sozinhos; a assembleia geral, formada por senadores e deputados, que iria criar as leis.
Outra novidade muito grande que nossa constituição imperial trazia era o fato de o rei não decidir mais quem deveria ocupar certos cargos. Um dos exemplos mais marcantes foi o cargo de juiz de paz. Hoje, quando a gente fala em juiz de paz, logo pensamos em casamentos. Naquela época, contudo, casamento era coisa de igreja e juiz de paz era o novo magistrado que julgava a maioria dos processos. E o que tinha de especial esse juiz? Esse juiz era especial porque ele era eleito. Isso mesmo: eram as pessoas da comunidade que decidiam quem seria o juiz que julgaria seus processos. E tinha mais: era ele quem cuidava das ruas, da segurança, organizava as eleições e conciliava aqueles que procuravam o judiciário.
Mas o que o juiz de paz tinha a ver com a cidadania? Ora, os brasileiros cidadãos eram que escolhiam esse juiz. Até então o comum era o rei decidir quem seriam todos magistrados. E para ser juiz era preciso ser cidadão: era isso que dizia nossa Constituição. Assim, se você perguntasse para um brasileiro o que era ser um bom cidadão, ele poderia responder: ser um bom cidadão é poder votar no juiz ou mesmo virar o juiz da minha comunidade. Isso não era à toa: os antigos magistrados eram, em sua maioria, portugueses e os brasileiros tinham muito medo de que eles tomassem decisões que ajudassem Portugal a reconquistar sua domínio sobre o Brasil. Com a mudança, os novos juízes seriam brasileiros e seriam os próprios brasileiros quem os escolheriam.
É muito comum a gente ouvir falar mal dessas nossas primeiras eleições. Dizer que eram tumultuadas, desonestas e que pouca gente podia votar por causa de uma restrição aos que não tinham uma renda mínima. Quem faz esse tipo de crítica sem dar maiores detalhes está sendo, na verdade, bastante injusto. Isso porque é muito fácil para nós dizer o que é bom ou ruim sobre algo que aconteceu no passado, mas sobre o que não temos muita informação. É preciso se informar para não ficar repetindo bobagens de quem, no fundo, não reflete muito sobre as coisas que diz. Temos que lembrar que foi no século XIX que tivemos nossas primeiras eleições, estávamos experimentando coisas novas. E, principalmente, estávamos ainda discutindo o que exatamente significava votar; o que exatamente significava ser cidadão. Exigir que alguém tivesse uma renda mínima não era nada estranho para nossos antepassados, pelo contrário. O salário de um deputado não era alto, quem não tivesse uma boa fonte de renda não conseguiria sobreviver na capital carioca com o que ganhava. Ao longa da história, ser cidadão, na maioria das vezes, implicava em ter riqueza o suficiente para poder dispor de tempo para participar da política. Ademais, o Brasil era um dos países com maior porcentagem de eleitores em todo mundo(13%)*; foi apenas em 1881 que resolvemos reduzir esse número para cerca de 1% da população.
Na minha singela opinião, não creio que as condições de elegibilidade de nossa antiga constituição representam algo pior do que temos hoje: se antes era preciso ter dinheiro para entrar na política, hoje se entra na política para se ter dinheiro. É por isso que eu olho com muita admiração para nosso passado e vislumbro as formas criativas que nós brasileiros inventamos para construir nossa nação, para definir o que é cidadania para a gente. É claro que cometamos muitos erros - muitos - mas nada mais esperável. Afinal, pessoas erram e acertam todo dia; o mais importante é saber reconhecer os erros e admirir os acertos.

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Esse texto foi produzido como minha contribução para um desafio proposto por meu amigo Rafael Hygino para escrevermos um texto "voltado para alunos do Ensino Médio, que seja preciso o suficiente, mas que também não seja maçante." Essa história começou com um debate sobre um famigerado livro e terminará - espero eu - em uma gostosa discussão sobre como ensinar história. Para saber mais sobre o juiz de paz imperial, sugiro a leitura de minha dissertação de mestrado, disponível no seguinte endereço http://juizdepaz.x10.mx/ .

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De acordo com o censo de 1872, 13% da população total, excluídos os escravos, votavam. Segundo cálculos do históriador Richard Graham, antes de 1881 votavam em torno de 50% da população adulta masculina. Para efeito de comparação, observe-se que em torno de 1870 a participação eleitoral na Inglaterra era de 7% da população total; na Itália, de 2%; em Portugal, de 9%; na Holanda, de 2,5%. O sufrágio universal masculino existia apenas na França e na Suíça, onde só foi introduzido em 1848. Participação mais alta havia nos Estados Unidos, onde, por exemplo, 18% da população votou para presidente em 1888. Mas, mesmo neste caso, a diferença não era tão grande. (Carvalho, José Murilo de. Cidadania no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileiro, 2002. p.31)

sábado, 7 de agosto de 2010

Guinness Book - Edições infinitas

Em post anterior, mencionei meu hábito de brincar com a matemática. Entre as brincadeiras, adorava inventar problemas - o que normalmente era um pesadelo para a maioria dos meus colegas, era causa de horas de autoentreternimento para mim. Assim, como já fazia na infância, aos 21 anos pensei na seguinte pergunta: por que é sempre possível quebrar um recorde?
A indagação envolveu um pressuposto que parece (ou parecia-me) óbvio: um corredor sempre poderá percorrer um trecho de 100 metros em menos tempo do que alguém - incluindo ele mesmo - o fez anteriormente. Essa constatação em nada parecia surpreender. Mas... como explicá-la? Como explicar que não há um limite para a velocidade que um corredor pode alcançar. Por que sempre poderá existir um homem mais alto do que o homem mais alto que já viveu; por que a expectativa de vida humana poderá sempre aumentar; por que os computadores sempre poderão processar mais rapidamente; ou seja, por que o Guinness Book sempre poderá editar uma nova versão a cada ano?
A resposta para esse problema envolve transferir uma noção quase metafísica - o infinito - para um objeto do mais cotidiado: a régua. De fato, o infinito existe na régua, existe no relógio, existe no velocímetro, existe na balança.
O infinito não foi criado quando o homem percebeu que algumas coisas poderiam não ter fim: ele foi criado quando o homem começou a medir as coisas. Até porque, de certo modo, tudo no mundo físico é finito: o número de grãos de areia na praia, o número de anos que a Terra possui, o número de estrelas no céu. Poderia até arriscar em dizer que o universo é finito: a ideia de ele não possuir limites só existe porque os cientistas não conseguiram definir ainda o que seria o limite do universo. E os limites da capacidade intelectual humano - sim, ela também possui limites - explica a definição de infinito.
Se as coisas são todas finitas... o que seria o infinito? O infinito, na verdade, nada mais do que a ausência de limites tangíveis. Em nosso dia-a-dia, ele é alcançando muito facilmente pela noção de divisão. Por exemplo, pense na distância entre Vitória e Tokyo - 18,300 Km. Agora pense na metade dessa distância - em Addis Abeba, na Etiópia, por exemplo. Viaje mais a metade até o Cabo Verde - sim, não precisa ser um percurso retilínio. Continue divindindo sucessivamente até chegar a uma distância, digamos, de 1 metro. E agora? É possível dividir? É claro, você diria: 50 cm. E dividir de novo? Por quê não? O ponto é: quantas vezes podemos dividir essa distância? É isso mesmo: infinitas vezes. E por que podemos fazer essas infinitas divisões? Afinal, a distância entre Vitória e Tokyo possui limites claros e soma seus pouco mais de 18 mil quilômetros.
Podemos fazer essas infinitas divisões porque o homem inventou os números. Os números que associamos a objetos de nosso mundo - cinco carros, três quilos, setenta metros - só existem de fato em nossa cabeça. E por isso, por uma ficção numérica, sempre podemos criar um número menor do que outro.
Pense em um número bem pequeno. Que tal 0,00001? Coloque mais um zero e terá um número ainda menor: 0,000001. E sim... você pode sempre criar um número menor. Ou um número maior! Os números na verdade são meras aproximações. A distância entre Vitória e Tokyo jamais poderia ser medida - exatamente - pelos números; aliás, por UM número. Sempre haveria um outro mais preciso. Tudo que fazemos com a matemática do mundo real é mera aproximação. É por isso que os recordes sempre podem ser quebrados: eles de fato não existem! Nunca sabemos quão rápido foi um corredor, ou um nadador.. apenas aproximamos em nossa cabeça - por meio de três ou quatro algorismos - a grandeza de sua velocidade. E como sempre podemos criar uma fraçãozinha a mais - adicionando outros três ou quatro algorismos - o próximo recorde está logo ali na esquina - ou lá longe em Tokyo.




quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Is my gaydar broken?

This is my very first post in English. Correction: my very second. It feels, however, as if it actually was, for this time I gave some more thought on what I am writing. I'd like then to begin by explaning my title choice. It was indeed the reason I flopped the language of my blog. I learned this word 'gaydar' when I was watching the comedy series 'Will&Grace'; in fact, the characters repeatedly used this expression, as one's sex orientation status was always on the spotlight (when it was not crystal clear, of course!)
Sometimes, I catch myself trying to be certain of things. I do that quite often, actually. And I'm afraid that's so in that I'd like to be able to rely on myself without much hesitation. I do realise that's not really possible - possibly. But if I think it through, it is not too difficult to see I may have a point. There's no actual way to be sure of things - many philosophers have taught us that -, though some would disagree. I wouldn't care for them, really. Righteousness would stop me from being so proposturous, but that's too far-fetched an idea. Be as it may, I'll still try to figure out one's orientation. Had I something better to do, I wouldn't be here writing this very post.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O mito do Censo

O IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - iniciou ontem o 12º Censo Demográfico Brasileiro. Para nós, meros espectadores dessa operação gigantesca, o Censo resume-se em atender - ou não! - um recenseador nossa porta - para os que porta têm - e responder a algumas perguntinhas cujo conteúdo - sigiloso - será armazenado via pequeno dispositivo digital de mão.
A grande preocupação de alguns talvez seja conseguir identificar os 'verdadeiros' funcionários do órgão - algo me diz que o número de falso recenseadores intentores de cometimento de alguma atitude criminalmente tipificada irá aumentar vertiginosamente nos próximos meses-, ou talvez a incerteza de responder alguma pergunta sobre orientação/opção/histórico/doença sexual.
Particularmente, ao falar em censo, penso nos historiadores que nascerão nos séculos que nos seguem. A riqueza das fontes a eles disponível é de causar inveja a qualquer companheiro de profissão do século XX, que busca, em arquivos empoeirados, informações escassas - escritas por algum clérigo, possivelmente - para formar um panorama que ele supostamente acredita existir. Inveja maior ainda tenho eu da liberdade que ele terá para olhar para esse nosso mundo, sem estar bombardeado pelas crenças desestruturantes do tempo em que vivemos.
É realmente fascinante imaginar que podemos apreender o mundo por meio de números e gráficos em formato de pizza. Mais fascinante ainda é sonhar em apreender esse mundo sem o menor sentimento de obrigação de tentar mudá-lo: eis a grande dádiva do historiador. Afinal, como mudar um mundo que o tempo deixou para trás? Seria, de fato, confortante tal possibilidade; pena ter o historiador de viver em um mundo para poder olhar para outro que não o alcança mais.

domingo, 1 de agosto de 2010

Liberal ou conservador?

Os adjetivos dicotômicos 'liberal' e 'conservador' aparecem bastante frequentemente no discurso; seja nas ruas, nos impressos ou nos virtuais. Insiro-os na longa lista de palavras que, de tanto repetidas, parecem perder o sentido. O que afinal quer dizer o político quando acusa o oponente de ser conservador? E que nova onda é essa de filhos que consideram os pais liberais demais? No primeiro caso, talvez estejam referindo-se àqueles que resistem a mudanças (como se mudanças fossem dar atenção a nossos receios). No segundo, talvez estejam comentando sobre pais ausentes, ou pais com hábitos geralmente associados aos jovens...
Mas esses são somente alguns exemplos banais[sic]. Coloquei-os aqui apenas para começar uma discussão que resgate esses sentidos perdidos; até porque percebo-me muitas vezes a usar essas qualificações e não gostaria de tropeçar nas minhas próprias palavras. Comecemos então pelo mais rejeitado[sic]: conservador. O caminho mais fácil talvez seja pensar na derivação: conservador é aquele que conserva. Nesse sentido, não poderia ser aquele que não deseja a mudança, mas sim aquele que, de fato, não mude. Sou definitivamente um conservador; ao menos, em algum sentido. No presente momento, por exemplo, estou ouvindo a um álbum que ouvi durante toda a adolescência. De fato, meu gosto musical foi velado antes de completar os vinte anos. É bem possível que essa seja a razão de não gostar de rádio.
E liberal? Não parece ser o que liberta, nem o que é livre. Seria liberal aquele que ama/deseja a liberdade? Mesmo um pouco cético, gosto de me enxergar como amante da liberdade: amante do direito de ir e vir, de dizer o que pensa, de acreditar no debate, e - por que não? - do direito de mudar. Possivelmente nasci e morrerei um liberal - mesmo que considere a liberdade (e qualquer coisa, na verdade) relativa e questionável. Sou filho do século XX e culpo-o pelas minhas descrenças nas minhas próprias crenças.
Entrem outros, Houaiss chama de liberal de progressista - colocando esse como oposto de conservador. E chama esse quem defende o tradicional. Parece uma boa saída.
Particularmente, prefiro quebrar a dicotomia. Prefiro ser um liberal conservador: aquele que ama a liberdade sem nenhuma pretensão de mudar.