segunda-feira, 1 de junho de 2026

Waarvoor heb ik angst?

Waarvoor heb ik angst?

Ik heb angst voor de toekomst, dacht ik.

Maar de toekomst bestaat (nog) niet.
Bestaat die überhaupt?

Misschien ben ik bang voor het verleden —
ah, het verleden.

Het bestaat zeker niet meer.
Tenminste, niet meer zoals het was.

Hoe kan het dan toch nog bestaan?

Dat ik bang ben voor het niets —
wat maakt dat van mij?

Iemand die niet alleen hier niet kan staan,
maar ook al is weggegaan.

Omdat ik hier niet besta.

Ik ben ergens anders —
en daarom ook niet daar.

sábado, 28 de junho de 2025

Amor

O que é amor? Quando se fala "eu te amo", o que exatamente se quer dizer? Eu pensei no amor e em sua história. Quando o amor apareceu. Sua manifestação mais remota. O cuidado do genitor pela sua prole. O amor talvez tenha nascido nos números, na transição gradual para poucas crias. O amor é querer evitar, ou mesmo temer, que parte de nós se vá antes que possa ela mesma se particionar. 

E não aí ficou. Veio o altruísmo genético: o amor pelo pares. Veio o amor pela mãe; e pelo pai (quando aventurou-se, entre outros, a monogamia). Vieram outros cuidadores. Veio a adoção. Os animais de estimação. Vieram os amigos. Veio até a paixão. E veio você.   

O amor não é apenas história.

O amor está aqui, em mim. Nas lembranças que tenho das coisas que perdi e daquelas que jamais irão. Na sensação que meus sentidos criam: essa certeza ingênua de que você (de fato!) existe e que, mesmo que se cesse, permanecerá parte de mim.

O sentido do amor então talvez seja o mesmo dos genes que o criaram: a eternidade efêmera.



 



domingo, 18 de fevereiro de 2024

Split

When I saw you arrived alone, I felt happy. Strongly. For I would have time to listen to you. To know you. I would have your rapt attention. It is quite difficult to be in this ambivalent position: with the will to know and the will to give an abiding strong good impression. 

You see... this is no unfamiliar territory to me; but it is one I haven't entered in quite some time. I have found this comfortable place of no intense (but perhaps pent-up) emotion, from which I did not want to leave. 

But then you came along. Or I came along. I've formed this unfortunate habit of make-believe. A escape from a reign of sadness where I rule unjustly and alone. It would be hard to judge me for doing so, but guilt is an obscene loan word coined by the merciless who inhabited this land before me.

When he arrived I felt rather angry. Not at him, I imagine; maybe at you. I don't suppose it showed. I gave in to my weary cynicism and tried somehow to make most of it. And it didn't take me long to realise it. To see beyond the obstacle and into the man. 

Fission. This powerful fatal attraction; that genuine frank admiration. No longer together. Like adultery in a marriage that never took place. I should be relieved in a way, I guess. In an inconvenient way at least. So close strong a tie that severs before it could cement. The faint possibility of passion that is precluded. 

And stands still. Admiration can be drawn; attraction can begin to grow. So I am lost in a maze without exits; though I keep looking for them. A desperate crude attempt to give meaning to something that already meant something else. A schizophrenic relationship to those I stubbornly insist to hold dear.






sábado, 5 de março de 2022

Na manhã do dia seguinte, ele lembrou.

Quando existi, 

perguntaram por quê.

Sou ramo da existência.

Faço parte do que me antecedeu.


Construção passageira de um código perene.

Necessito deste para ser; e este de mim.


Cada trecho, um aglomerado acumulativo.

Produto e causa de sinais vitais.


Quando existi,

perguntaram para quê.

O texto, mesmo com fim,

permanecerá, 

mesmo sem mim.


Cada trecho, um aglomerado acumulativo.

Produto e causa de sinais vitais:

a poesia me recitou.

sábado, 22 de maio de 2021

 

L.,

Escrevo esta carta para alguém que desconheço e conheço. Desconheço porque nunca nos vimos ou falamos: estranho dirigir a palavra nessas condições; não saber exatamente como será a reação a uma leitura íntima vindo de quem existe – na melhor das hipóteses – apenas na imaginação. Porém, também sinto que a conheço. Já vi fotos, ouvi histórias, formulei hipóteses sobre que tipo de pessoa é, seus hábitos, medos, sonhos. E, principalmente, conheci um de seus frutos.

De certo modo então, esta é uma carta de duplo endereçamento. Não quero dizer que esteja com destinatário errado. Pelo contrário: quero muito que leia estas palavras, acredito existir um propósito importante nisso. Mas também não posso afirmar que seja destinada apenas a você. Faz muito mais sentido, principalmente em um primeiro momento, revelar este escrito a T. Assim tenho feito, ainda que numa tentativa mais comedida, recheada de receios: de que se assuste, de que se sinta esmagado por uma avalanche de sentimentos que nem eu saberia precisar e dissecar muito bem. Escolho então um interlocutor especial, que me permita chegar próximo, quase tocar e, com mais tranquilidade, sentir-me escutado.

Primeiramente, queria falar um pouco de mim, ainda que se descrever costume ser uma tarefa ingrata, que se perde entre um anseio – o que gostaria de ser – e uma expectativa – como acho que me veem. Quase sempre é também falha, porque a essência parece muito mais uma construção utópica, uma falácia da qual nos convencemos para poder construir e reconhecer uma imagem no espelho, mas que, no fim, é mutável e incerta. Apesar dessas limitações, quero arriscar-me nessa incumbência, para ajudar a explicar meu propósito aqui.

Em minha autodescrição, entre todas as palavras que poderia usar, eu escolheria falta. Todos temos falta, sentimos falta. Em mim, porém, esse sentimento parece ganhar um contorno mais marcado, mais explícito. Porque sinto falta constante, ainda que não seja uma qualquer: minha falta é de amor. Eu não me lembro de jamais me sentir amado. Minha vida foi marcada por outros personagens muito diferentes, sendo o maior deles o medo. Sempre senti muito medo. Medo de apanhar, de ser humilhado, de ser julgado. Medo de que pudessem olhar para dentro de mim e enxergar tudo que desejo, tudo que temo, e de verem assim o quanto sou só.

Imagine então o que foi para um rapaz que sempre testemunhou e vivenciou esses olhares sádicos esbarrar pela primeira vez com alguém que lhe dissesse sim. Que lhe estendesse a mão e falasse que está tudo bem em ser diferente. Não hesitar em tirar a máscara, despir-se, deixar nu o que esteve por tanto tempo escondido. Eu me apaixonei. Não havia como ser diferente. Não havia como encontrar algo tão raro e não desejar ardentemente. Poderia até dizer que não acreditava na existência de um desejo tão forte. Pelo menos, não mais. Eu era um romântico platônico, mas as experiências mundanas arrancaram, pouco a pouco, a minha gana. Era um cliché invertido: sem receber, também já não podia dar amor.

T. provou que eu estava errado. E o fez da forma mais delicada e generosa possível: tratou-me como um ser humano. E sei que não sou exceção. Sei que sua doçura permeia cada encontro com quem tem a sorte de conhecê-lo. Ele é educado, gentil. Às vezes, quando lembro dele, começo a chorar, porque me dói saber quem algo tão belo existe no mundo. Foi um choque muito forte. Um baque do qual ainda estou me recuperando. Isso me assustou: eu, já tão acostumado com o medo, agora receio não dar conta de tanta ternura, de não ser capaz de retribuir o ele desperta em mim.

Mas não quero ter mais medo.

Então irei me entregar. Irei me esforçar a cada dia para ser alguém melhor, alguém digno de estar ao lado de seu filho. É sonho, quase insólito, imaginar poder acompanhá-lo nessa jornada. Mas é exatamente o que quero. Uma jornada de companheirismo profundo e de um amor que não cabe no peito. Quero vê-lo feliz, extravagantemente feliz, porque assim ele me faz.  E, por isso, eu gostaria de agradecer a você. Por ter trazido ao mundo e ajudado a construir quem mudou a minha vida. Eu o amo, com toda minha alma, e poder amar é o maior presente que já ganhei.

 

Obrigado,

 

Vitória, 30 de agosto de 2018.

 

 

segunda-feira, 9 de março de 2020

Con palabras

Las palabras asustan. Ello aprendí muy temprano. Las palabras crean lo concreto. Transforman en cristal duro  irrompible  lo que antes era fugaz. O no existía. O sólo existía donde se puede tocar. 
Las palabras duelen enormemente. Porque de algún modo son lo más real  o lo único real  que podemos concebir. Los humanos, esos seres-palabras: no porque vocales, sino porque construidos sobre, para y en el límite de las palabras. Más allá nada hay.
Quisiera creer que no es así. E incluso lo hice. Pensé que existiera la transcendencia. O la simple existencia sin que sobre ella fuera obligado a reflexionar. No es que fallé: no había posibilidad. Sufrí, sin embargo, las consecuencias de mi ingenuidad. 
Por ende te lo dije sin palabras. No quería herirte. Herirme. Mas fue exactamente lo que pasó. Porque las palabras estaban allí. En mi mirarte. En mi imaginar que sería posible tenerte in mis brazos. Sentir tu abrazo. Saber lo que significa ser tuyo. Mis manos al tocar tus manos te lo dijeron todo. Usaron todas las palabras ya inventadas y las que aún intentarán - y fallarán - llenar el vacío.  Susurraron 'te quiero' y, al hacerlo,  berrearon mi soledad. 
Quizá por eso nos asustamos y nos alejamos. Ya no podíamos fingir. Mi deseo se volvió cristal  irrompible. Y este ser-palabra ya no tendría chance de decirte nada más. Tu te fuiste, y me quedé a buscar palabras que podrían consolarme. Tan ubicas, y ahora tan fugaces. Tan poderosas, y ahora completamente inútiles. 



domingo, 8 de março de 2020

Desculpe-me

Eu vi seu rosto e não desviei o olhar.
Desculpe-me.

Você sentou-se ao me lado e o cumprimentei.
Desculpe-me.

Fiz perguntas, enquanto não parava de sorrir.
Desculpe-me.

Pedi seu telefone.
Desculpe-me.

Esperei alguns dias, antes de puxar assunto
(tanto medo tinha de não ser respondido).
Desculpe-me.

Quis saber de você, quem é você.
Desculpe-me.

E não cessei quando meu coração já dizia
que era tarde demais.
Desculpe-me.

Quando te vi novamente, me aproximei.
Desculpe-me.

E você, tão gentilmente, não me deixou de lado.
Desculpe-me.

E passei uma tarde de sol
caminhando ao seu lado,
ouvindo sua voz.

Em minha casa, a tarde virou noite.
E que fosse boa companhia
era tudo que queria.

Desculpe-me.
Desculpe-me.
Desculpe-me.

No outro dia, dizer adeus foi difícil.
Segurar as palabras foi difícil.
Desculpe-me.

Esperar e não saber o que seria de nós.
Vê-lo outra vez e sonhar.
Desculpe-me.

Desculpe-me por escolher o momento.
Se as minhas razões não são boas razões.
Se meu coração bate do lado errado.

No momento que você se foi, eu me fui também. A manhã já não era a mesma, e o amanhã deixei para depois.

Desculpe-me.   







sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Apenas palavras

I miss you,
I've been missing you for some time now
for it has been some time now
since we last talked.

I remember how sad I was
even though I forgot how sad I was
for this little while.

I cannot say you healed me
nor that I am healed
I am not healed,
but I'm better.

I've been better for some time now
for it has been some time now
since we last talked.

You helped me so much
and I didn't realised how much
'til you were gone.

That's how it works, isn't it?
You do your thing
quietly, slowly, unpretentiously
and it works.

It works.
It worked for me.
And I thank you so very much,
my love.




segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Seria mais fácil com um sorriso na alma.
Seria mais fácil com esperança de dias melhores.
Seria menos difícil.

Seria mais fácil se crime e castigo recaíssem sobre a mesma pessoa.
Seria mais fácil ter memória no lugar de especulação.
Seria menos difícil.

Seria mais fácil se fosse em outro momento, com outra pessoa.
Seria mais fácil se não houvesse tanto amor.
Seria?

Seria mais fácil se eu não soubesse desde o princípio,
ou, se você soubesse desde o princípio,
teria eu me permitido?

Seria mais fácil, para quem afinal?

Seria mais fácil se pudesse identificar o que aperta mais:
a tristeza, a raiva, a amargura ou a decepção.
Ou talvez fosse até mais difícil.

Seria mais fácil se não fosse tão óbvia
a minha imperfeição.
Seria mais fácil se não fosse tão difícil desculpar.

Seria mais fácil se seu sorriso não fosse tão lindo,
se eu não me sentisse no céu quando estou em seus braços.
Seria mais triste também.

Seria mais fácil se o sim e o não fossem entidades apartadas.
E o bom e o ruim.
E o tudo e o nada.

Seria tão menos difícil.

Seria fácil se você não tivesse me dado tanto
e me tirado tanto,
ao mesmo tempo.

Seria mais fácil se eu soubesse
quando irá parar de doer.
Quando irá parar de doer?

Seria mais fácil se os momentos de alegria
não fossem mera exaustão da tristeza.
Não (o) seria?

Seria tão mais fácil se eu não precisasse te ferir
para lidar com minha dor;
te culpar, para me culpar menos.

Seria tão mais fácil se meu amor não fosse inflamado.
Seria mais fácil se eu não me odiasse tanto
a ponto de odiar quem eu mais amo.

Se você não tivesse se/me/nos feito mal
repetidas vezes, insuportáveis vezes.
Seria mais fácil se meu coração não estivesse destroçado.

Seria mais fácil se, ao olhar para você,
eu não lembrasse instantaneamente
do que mais quero esquecer.

Seria mais fácil se eu não tivesse visto dias
em que o culpado era apenas eu,
quando você era meu herói.

Seria mais fácil então não ter memórias
ou é a experiência narrada
que não me deixa partir?

Seria mais fácil se eu aceitasse a vida
com seus devaneios, sua ironia,
suas piadas de mau gosto.

Seria mais fácil se eu enxergasse o tanto que tenho,
a sorte que tenho.
Seria fácil demais.

Seria justo demais
se houvesse justiça;
mas seria lindo talvez.

O que seria afinal de nós dois,
se tudo estivesse no lugar.
Se cada pílula a mais não fosse um dia a menos.

Se tudo estivesse no lugar,
eu estaria aqui?
Você estaria aqui?

A nossa vida se tornou a busca do perdão
e seria mais fácil se essa cessasse
de um jeito ou de outro.

Seria mais fácil se eu tivesse escolha?
Ou se você tivesse escolha?
Mas a escolha que tinha você já fez; e eu, a minha também.

Seria mais fácil então não querer facilidade,
não querer felicidade,
não querer continuar.

Seria mais fácil poder voltar no tempo
e mudar alguma coisa, qualquer coisa,
que fizesse amenizar a dor.

Seria mais fácil ser mais egoísta,
ou menos egoísta.
Seria mais fácil aproveitar.

Seria fácil dizer que, se tivesse a chance,
jamais teria apertado aquele botão.
Mas isso seria o mais difícil.

Porque você é quem você é;
por isso, foi fácil demais
me apaixonar.

Seria mais fácil? Talvez.
Mas essa pergunta já não tem lugar;
e isso é o mais difícil.

Seria mais fácil
e desolador;
e isso é o mais difícil.

Finalmente, seria mais fácil se soubesse encerrar este escrito,
se tivesse alguma frase de efeito, ou mesmo uma moral.
Não tenho nada.

Seria mais fácil se, de algum modo, soubesse o que será de nós.
Não sei, e parte de meu temor talvez seja esse.
Seria fácil pensar que tudo é apenas poesia.

Seria fácil; e lindo demais.



































terça-feira, 2 de outubro de 2018

Dizer eu te amo

Dizer eu te amo parece pouco. Por quê? 

Em certas circunstâncias, dizer eu te amo é muito. Pelo medo da entrega, da ferida - sentida ou infligida.

Mas não é disso que falo. Não falo da hesitação pela hipérbole, mas pelo eufemismo. Pelo fato de que a palavra não irá tocar o objeto a que se refere. 

Para compensar essa deficiência, faço uso de diferentes estratégias. Primeiro, a repetição: digo que amo exageradas vezes. Como se, a cada instância, a palavra abarcasse um pouco mais da experiência que almeja descrever e dela assim se aproximasse. Mas falha. Lanço mão então de figuras de linguagem, que retiram a palavra de seu lugar de conforto para criar algo que, em seu mundo fechado, não tem deveras lugar. Mas falham. Porque mesmo metáforas, comparações e metonímias apenas distraem o interlocutor do fato de que o que se diz não coincide exatamente com o que se quer dizer.

Também fujo do mundo dos vocábulos. Faço gestos, ações. Beijos delicados, também exageradamente repetidos - como se cada toque do lábio no corpo estivesse a desobstruir um canal imaginado de comunicação direta. Abraços, apertados ou delicados, quase sempre prolongados, como se fosse possível fundir pele com pele, como se escutar as batidas do coração fosse o mesmo que entender o motivo pelo qual o faz. E choro, choro - ao ver o rosto, ao pronunciar o nome, ao lembrar, enfim, que ele existe. Como se lágrimas fossem a matéria do sentimento, capazes de externar, ainda que em um ínfimo, o que as provocou. Entrego presentes, escrevo poesias, como se o tempo materializado ou a matéria temporal fossem capazes de condensar o amor. 

Mas não são.

Dizer eu te amo parece pouco. E é. Porque não posso explicar com ideias ou com meu corpo o que minhas ideias e meu corpo condividem. Dizer eu te amo é pouco, mas não dizê-lo contorce minha alma ainda mais, porque essa é a maneira que encontrei para tentar conciliar o que sinto com o que posso expressar. Dizer eu te amo com as palavras repetidas, rebuscadas, fora de seu lugar habitual. Dizer eu te amo com um beijo, um abraço, um gesto, um presente. Com uma vida nova. Dizer eu te amo a cada dia, de uma forma distinta, que ainda terei de inventar. Porque dizer eu te amo é muito pouco.

Dizer eu te amo é pouco. Por quê? Porque o amor é justamente aquilo que não se pode dizer, que não se pode traduzir, que não se manifesta fidedignamente no sensível. O amor não é símbolo. O amor é o único que não é símbolo. E, como seres simbólicos, o amor não faz parte de nós, ainda que esteja em nós. Dizer eu te amo então é tentar simbolizar, é tentar inventar o que já existe, o que pré-existe e o que vai sempre existir. Dizer eu te amo, enfim, é buscar a eternidade que tanto desejamos, mas jamais teremos, porque ao mesmo tempo que amarra, afaga, dá vida e escapa de nossas mãos.   


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Tatuagem

Eu dissera jamais imaginar fazer uma tatuagem:
deixar marcado para sempre um objeto
no objeto de meu corpo
pregado
constante
inseparável.

Estava enganado.

Porquanto minha vida foi a busca
pela tatuagem perfeita
e o local perfeito
onde fixá-la.

As que fiz até então,
se as fiz até então,
foram apenas esboços,
ainda que a carne viva
ainda chore a dor da agulha,
dos traços borrados,
da rasura mal-feita,
do lugar errado.

Não mais.

Pois encontrei a representação
que sempre busquei.

E encontrei a parte perfeita
onde fazê-la
parte de mim.

A pontada da agulha,
a lesão no tecido,
o medo de ter para sempre
agora me transformou
e se transformou
em candura.

Pois, em cada batida,
meu corpo lembrará
que você existe.

E, a cada batida,
saberei que valeu a pena
a procura.

Meu coração
amaldiçoado
agora pintado
com as cores mais lindas
passou a palpitar sabendo
que vale a pena fazê-lo,
pois o eco abafado e triste
deu lugar ao som de seu nome:

tum, tum, tum, Tales
tum, tum, tum, Tales
tum, tum, tum, Tales
tum, tum, tum, Tales














domingo, 9 de setembro de 2018

Severin libertado

Todo dia quando acordo, eu tenho uma sensação de neutralidade. Não me sinto bem, não me sinto mal. Esse espaço de dormência descreve minha própria consciência, na medida em que não me encaixei ainda em nenhum contexto particular. É como então se existisse, sem saber exatemente o que isso significa. Como se existir fosse necessariamente um estado no qual nos colocamos.

Angustiado pela incerteza, começo a pensar no dia que passou, na vida que passou. Entretanto, faço esse procedimento de uma forma bastante peculiar: inicio a reconstruir minha consciência como se precisasse me proteger do que está por vir. O que lembro então desse dia, dessa vida não é o agradável, ou mesmo o indiferente, mas o que causa dor, preocupação, medo  aquilo para o que, enfim, tenho de me preparar.

É uma forma muito triste de começar o dia. E seguir com o dia. E estou tão cansado. São anos, décadas nesse estado latente de uma dor preparativa para um mal que não irá acontecer. Assim, há um tempo já, procuro mudar esse hábito, por mais custoso que me seja. Tento, de alguma forma, modular esses pensamentos, redirecioná-los, ressignificá-los. Tento entendê-los. Porque não quero me manter no conforto de uma dor que eu mesmo criei. A vida, por si só, é apenas a sensação de neutralidade que sinto ao acordar. O resto é todo eu. É todo meu. 

Ao despertar agora, ao lembrar do dia que passou, da vida que passou, quero sorrir. Porque há por que sorrir. Há muito por que sorrir. Como se existir fosse necessariamente um estado no qual nos colocamos. E é. 



Em 1870, Leopold von Sacher-Masoch publicou A Vênus de Peles, obra que ficaria famosa principalmente por conta da inspiração que traria a estudos de psiquiatria, quando o médico Richard von Krafft-Ebing cunhou o termo masoquismo, descrito Psychopathia Sexualis, de 1887. Sigmund Freud popularizaria ainda mais o tema, após incluí-lo em seus trabalhos.

A Vênus de Peles conta a história de Severin von Kusiemski, que se apaixona perdidamente por Wanda von Dunajew. Diante do seu fascínio, Severin pede a Wanda para ser seu escravo e a relação do dois se torna a manifestação da metáfora do martelo e da bigorna: o dominador e o dominado. Em cena clássica, Wanda veste peles de animais, enquanto maltrata seu amante.

Um dos pontos que mais se destaca na história é o prazer relatado por Severin por conta dessas experiências, contrastando o senso comum, que diz que a dor e o sofrimento são necessariamente indesejados. Foi essa aparente contradição que levou o texto para o estudo do comportamento sexual, ou mesmo de forma mais genérica, para descrever o prazer no sofrimento.

O que nem sempre é lembrado, entretanto, é o final da história, quando Wanda encontra um novo amante, de quem quer ser escrava. Severin chega a um ponto de sofrimento tão grande que seu desejo pela amada cessa.

Severin libertado. 





domingo, 26 de agosto de 2018

E é.

Passos a caminho de um destino, ou sem destino
como se estar vivo fosse suficiente para seguir em frente
e é.

Com ressalvas, é claro; temores... mais pela incompreensão
porque não há o que compreender
como se estar vivo fosse suficiente para duvidar de (quase) tudo
e é.

"Para onde vai?" - olho surpreso; achava estar sozinho
"Não sei."
"Posso ir com você?"

Os passos ficaram curtos; o destino, um afago
porque não há o que compreender
como se estar vivo fosse suficiente para sorrir
e é.

"Achei que fosse caminhar só, correr só, e devagar só"
"Posso ir com você?"
como se estar vivo fosse suficiente para dizer sim
como se dizer sim fosse suficiente para querer
e é.

Porque alguém irá comigo
como se isso fosse suficiente para ser feliz
e é.


sábado, 18 de agosto de 2018

Do outro lado da rua

Do outro lado da rua ela espera
há tanto tempo ela espera
sem perceber

Fechou os portões
e disse:
aqui não entra mais ninguém

e ninguém nunca saiu

Do outro lado da rua ela pensa
que pode vislumbrar melhor
ou pelo menos observar melhor

ninguém vai sair

Já passaram muitos
variadas formas
variados tempos

mas algo não muda jamais

Do outro lado da rua ela espera
que o dia seja mais bonito
ou menos doído

Por isso fechou os portões
os trancou:
aqui ninguém mais entra

então como ele entrou?

Do outro lado da rua ela pensa
que a espera chegou ao fim

Minha querida...

a espera mal começou.

sábado, 11 de agosto de 2018

Eu digo sim

Estou chorando. Meus olhos doem: de cansaço, de desespero. Porque estou chorando. Começou há alguns dias. Eu sei que ando sentindo muito. E tenho tentado entender o que aperta o meu peito. Há coisas que estão aqui há muito tempo; que, de tempos em tempos, voltam. Mas há coisas novas também. Eu contei um pouco para você. Dividi minhas angústias. Mas hoje eu chorei muito. Tanto. Como já não fazia há muito tempo. Pensei que fosse o mesmo medo: mais intenso, ou mais confuso. E inventei uma história em minha cabeça. Bolei o enredo e, por ele, chorei. 

Quando você estava aqui, deixei meus sentimentos escaparem. De um modo tímido, covarde. Eu disse que estou apaixonado, mas que, ainda assim, poderia viver bem sem você. Que aceitaria o seu não, a sua partida; como um episódio a mais, entre tantos outros. Falei que o que importava era o momento. E eu tinha razão. É o momento que importa. Mas também não tinha razão: porque sua partida faz diferença. Dói. Eu choro porque você não está aqui. E choro porque você está aqui.

Eu busquei hoje informações sobre visto. E cheguei à conclusão que a resposta mais simples e segura seria casamento. Para que você pudesse viajar comigo; estar comigo. Então comecei a pensar em como seria esse dia. O dia em que diria sim para mim. E esse pensamento me pareceu tão bonito. E tão possível. Me veio o desejo de ver suas fotos e o choro retornou  forte, incessante. Percebi naquele momento que não era apenas um arranjo burocrático: eu realmente quero casar você.

Há muitos anos eu desisti dessa ideia. Não era mais parte de mim. Eu arranquei qualquer traço de entrega, de promessa, de amor. E me assusta muito. Imaginar que eu poderia voltar novamente àquele lugar  vulnerável,  delicado, inseguro.

Eu não sei o que vai suceder. E não sei o que está sentindo. Nem sei ao certo se irei aguentar essa leva de sentimentos, essa leva de amor, que há tanto não vivia. Mas o que importa é o momento. E, nesse momento, eu diria sim. Eu diria sim. Eu digo sim: para mim e para você. Eu digo sim.






terça-feira, 7 de agosto de 2018

No meio

Estou preso no meio,
na divisa, na fronteira.

Pertenço ao lugar de onde vim
e ao lugar para onde irei,
mas estou preso aqui.

Posso olhar para trás,
ver o caminho,
lembrar e saber
exatamente onde errei,
mas não posso mudá-lo.

Posso olhar para frente, 
ver mil caminhos,
vislumbrar e saber
exatamente aonde darão,
mas não posso tomá-los.

Porque estou preso no meio.

Não faz sentido, eu sei,
essa prisão.

Essa cri-a-ção...
Essa cre-a-ção...

Mas tampouco faz sentido
que não estou,
que apenas sou.

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Quando eu era adolescente, eu queria chupar o pau de um colega de sala. Talvez eu quisesse beijá-lo, abraçá-lo, mas, em minha cabeça, a cena que se repetia era a felação. Mas eu não tinha coragem de dizê-lho. 

Então, depois de muito pensar, eu tive uma ideia. Eu peguei uma revista, recortei as letras e as usei para escrever um bilhete. Ali eu dizia exatamente isso: que eu queria chupar-lhe o pau. 

Só que depois eu não tentei entregar-lhe o bilhete, ou deixá-lo entre seus pertences para que pudesse achá-lo. Acho que o rasguei pouco depois. Mais um de n desejos de então que não tive coragem de lutar para torná-lo verdade. 

Nunca saberei como teria sido sentir a textura de seu pênis em meus lábios e gosto de sua porra em minha boca - mesmo se sucedesse hoje. Porque não sou o mesmo e ele não é o mesmo. 

Nunca saberei como teria sido não sentir medo, não sentir vergonha. E isso dói. Quando lembro de tudo que poderia ter sido, não sei se tenho raiva, ou apenas tristeza. Sei apenas que dói - porque estou preso no meio.





sábado, 7 de julho de 2018

The phantom limb


I cut you, I slice you,
I amputate you.

I desiccate, manipulate, rearrange.

I do everything I can
to get rid of you.

And I do.

But you are still a part of me.

I fight against. I refuse. I deny.

I lie, over and over again.

You are still a part of me.

Because you grow, you regenerate,
you are back again.

You were never gone.

I cut you, I slice you,
I amputate you.

Again, and again, and again.

But I still feel you,
cause you are still you,
and I am still me.

So we are still. Still.

I am alone, with a limb I do not want.

And I do.

Because you were never gone.













segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Especial

Depois que você foi embora - talvez não logo depois, mas algum tempo depois -, eu me pus a procurar algo. Como a barra de chocolate - que não adquiri a tempo -, queria que tivesse alguma prova; algum sinal de que você me faz diferença, de que é especial. Pensei em escrever um texto, mas isso parecia um pouco frágil, um pouco forçado talvez. Porque já não tenho a inocência de meus quinze anos, já não tenho a coragem de outrora, ainda que a gana permaneça. Então, busquei um escrito antigo, alguma parte de mim. Como se também fosse necessário provar que eu sou especial, para que pudesse ter vontade de estar comigo. Não que eu não tenha deixado meu interesse claro - talvez não exatamente que tipo de interesse. Como aquelas cenas em filmes, ou em livros, em que a personagem cética, por algum detalhe mínimo, vê o que estava há tanto diante de seus olhos. E deixa seus medos de lado - os atira pela janela -, e junto com o antiherói ganha a chance de sorrir novamente.
Entretanto, eu não me vejo como nenhum dos dois. Queria. Talvez até mais o primeiro, o que consegue desenvolver uma capacidade nova de amar, que não seja a óbvia paixão fulminante. Porque é nesta que sempre me ancorei. Sei tão pouco de você e talvez justamente por isso sinto essa atração. Não que a parte desconhecida seja ruim - pode ser que sim, pode ser que não. Mas é justamente o mistério - encapsulado nesse lindo sorriso - que deixa nesse estado de latência. E também não que isso seja superficial ou desanconselhável. Porque são tão raros os desejos de me entregar, de querer tentar... então pouco importa que venham de um lugar irracional, emotivo, simplório. Porque a combinação de uma atração com uma possibilidade de mutualidade, mesmo que remota, é a esperança que tenho.
O que mais vai me fazer sorrir? Eu passo os dias fazendo planos, tentando construir um caminho infalível e, ao mesmo tempo, lidando com minha incapacidade de fazê-lo. Daí vem minha angústia, o tapa na cara que me diz: você não está no controle. Eu não estou em meu comando, e muito menos estou no seu. Então, eu posso tentar me convencer de que algo que eu fizer irá dar certo, irá despertar em você o que você despertou em mim. Mas estaria me convencendo do mesmo modo que faço com o restante de minha vida. E então eu falho. E sigo tentando.
Sei que não é perfeito. Sei que não irá suceder. E, se suceder, que não irá durar. Mas eu tenho que aprender a aproveitar o presente. Quando você estava aqui, em algum ponto eu me peguei pensando sobre como você poderia estar se sentindo e, por isso, não dei atenção ao que estava sucedendo a mim. Que estava beijando essa rapaz ridiculamente atraente, sentindo a textura de sua pele, o cheiro de seu cabelo. E me dei conta de tudo que estava perdendo. Então eu parei. Parei para prestar atenção em cada detalhe do seu corpo, em seu jeito de falar, de gesticular. Tentando construir uma memória que durasse, que me pudesse fazer sorrir quando você já não estivesse mais.
Agora, que alguns dias já passaram, algumas mensagens já passaram, a memória está seguindo seu curso, se desmanchando. E queria tanto poder fazer outras. Poder pegar esse sentimento ridículo e mesquinho, quase egoísta, e transformá-lo em uma oportunidade de construir amor. Porque senão... Se não?! E se não?
Está tudo bem. Vou guardá-lo em meu coração. Vou confiar naquele garoto de quinze anos que costumava dizer "eu te amo" tantas vezes, até sua alma se encher novamente. Você me a encheu novamente. Me fez senti-lo de novo. Por isso, justamente por isso, você é especial.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Not because I was given a gift
Therefore nor for their generosity
but their strength
their dogged persistence.

That's why I am here today.

I don't think that can be measured
in terms of good or bad
of right or wrong
it just is.

Thus I am not thankful
nor angry
instead I recognize their courage
and their selfishness
a naive ignorance
about what the future holds
and what it does not.

It does not guarantee
I cannot guarantee
by no means
whatsoever.

Because I was not given a gift
but an incredibly generous offer
I stubbornly couldn't refuse.















terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Rapazes

Rapazes.

Assim estava escrito no pedaço de papel para controle das mesas. Havia também um casal; uma família com duas crianças; senhor de boné. Nós éramos apenas rapazes. 

Estranhei quando li. Não que não pudesse nos definir - ou, ao menos, nos identificar - dessa forma. Poderia. E também não que fosse ruim. Não o era. Era apenas muito pouco. Muito pouco para mim.

De onde vem essa sede; às vezes, me pergunto. As cartas foram dadas e recebi talvez muito mais do que merecia. O que eu merecia? Ou até melhor: o que eu queria? 

Não esse querer esdrúxulo. Esse querer óbvio. É claro que é ele que eu quero. É com ele que tenho sonhado. É ele que tem feito eu voltar a lugares tantas vezes visitados, mas que tiram meu fôlego a cada vez que retorno ali.  

O que eu quero? Um romance de romance, com uma puta trama, cheio de contornos. Nada simples... nada simples. Simples para quê? Eu quero isto: que rapazes que são então rapazes e nada além de rapazes se transformem em amantes. Que se amem. Não um amor dado... assim de supetão. Um amor construído, conquistado, merecido grão a grão. Um amor que transforme carne. Que transforme alma. Que transforme tudo.

Veja... não são rapazes. São tão diferentes. Porque um quer esse amor lapidado, quase arrancado, uma odisseia; enquanto ele próprio derrama um amor tão fácil... de graça... que vem do ar. São dois antagônicos. Não têm nada a ver. Um quer tudo e dá tudo. O outro quer algo e dá algo. Tudo e algo não têm nada a ver.

Eu lembro então das lágrimas que derramou no cinema. Eu lembro então da atenção quando atenção não era devida.  E lembro desse rapaz lindo, tão lindo, que por algum motivo, e talvez por esse motivo, ainda não encontrou amor. E que não me rejeitou. Não me rejeitou. Tinha tudo para fazê-lo. Tinha algo por fazer. Seria compreendido por qualquer um, se assim procedesse. Se não apenas não mergulhasse, mas desprezasse cada centímetro de aproximação.  Mas decidiu que não. 

São dois rapazes na mesa. Eles estão na praia almoçando. Rapazes... isso é tudo que são.