sábado, 29 de outubro de 2011

Uma não promessa

É difícil fazer promessas,
seja porque nossa palavra ainda não é madura,
seja porque não nos conhecemos de verdade.

Então, por que é tão fácil fazer promessas?
Dizer aos quatro ventos o que seremos,
o que faremos e qual destino o mundo terá.

Por tudo isso, não lhe darei promessas hoje:
não falarei de dias que ainda não existem
ou especularei sobre um maravilhoso devir.

Tudo que posso ofertar é o que tenho hoje:
um coração cheio de amor,
um amor cheio de sonhos
e um sonho.

Porque o presente vive de seus atos,
o futuro de uma doce esperança
e o passado de sua eterna reconstrução.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O barco

Eu poderia usar o indefinido infinito como conforto
ou mesmo começar a contar os dias em reverso...
nada irá mudar.

Porque os novos apetrechos são detalhes
e não consigo preencher-me.
Vigora o tempo e agora
cabe-me apenas esperar.

Eu poderia dizer que é minha escolha
ou torná-lo como tal
mas o que são escolhas em um mar aberto
onde todo lado é um destino a esquivar?

Então eu lembro do passado que abraço
e deixo o barco à deriva
não há caso que almejo
ou se almejo, não o vejo prosperar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Wonder

Once I talked about an event that symbolised our relationship; today, I will speak of another. It was the day you didn't attend a family gathering with me (there were countless, I'm sure you remember that). In that specific event, we had just moved to my new appartment and things weren't going particuliarly well. All night long, during the party, I would stare at some point on the wall, and imagine how I'd feel when I'd get home and not find you there. I was in a way preparing myself for it; for it would not be easy.
It was around midnight when I returned. I opened the door, went to the bedroom and saw you sleeping on the bed. I gathered the little energy I had left, sat on the bed and started to cry: silently, softly and uncontrollably. Then you woke up, looked at me and asked what was wrong. And I replied: "I thought you'd be gone". I am sure on that moment you thought something like 'not just yet'. And the yet would come so soon after that.
So that's the moment I choose. I am still here, sitting on the same bed, gathering the little energy I have left, crying silently, softly and uncontrollably... and still wondering when you will be gone.

sábado, 17 de setembro de 2011

O voo

Já são meses que nos separam
como se anos não fossem
na esperança de que
finalmente sinta assim.

Mas a verdade é que o tempo não passa
quando o pensamento é um só.
E quanto mais tento fugir
mais sei estar em lugar nenhum.

Então deixarei os anos serem anos
porque o fim não é misterioso:
revelou-se no dia que olhei em seus olhos
e soube que seria sempre seu.

Pois é esse o destino que escolhi:
amar você até o fim
apesar de não ser você
que no fim estará comigo.

E poderia até dizer que vivo
como o último voo
de quem jamais saiu do chão.
Não é bem assim...

Não foi um voo que partihei com você.
No fundo, eu sei que nunca esteve lá.

Na verdade, vivo
como o erro redundante
e recorrente
que insiste e insisto
em evitar.

domingo, 28 de agosto de 2011

Promessas

Se toma um dia a mais de vida
menos um dia a mais de vida
menos um dia de vida.

E o que importa se os relógios não param
ou, se param, continuam a funcionar.

Há segundos que contam; outros que rodam;
há segundos de que faço ínterins longuíssimos e,
de repente, o ponteiro volta a voltar.

Eis então que lembro de você;
e o tempo já não é tempo;
e a espera do momento
vira uma longa pausa
a espreitar.

E tomo um dia a mais de vida;
longa vida de promessas. E tão curta.
Menos um dia de uma longa vida;
e o ponteiro volta a rodar.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A cidade

Às vezes sinto que a qualquer instante minha vida irá começar.

Vejo imagens como relances futuros; tenho esperança de finalmente chegar.

Engraçada essa palavra: esperança; tão bondosa e tão cruel.

Pois é ela que me liga a um passado destruído,
mas também evita que eu arranque dias que virão.

É bom pensar que esses são apenas momentos difíceis.

Veja... é logo ali. Como a imagem de uma cidade pela janela do avião.

Esta manhã sobrevoei a sua famigerada casa, de onde você me expulsou. As pessoas pareciam tão distantes, tão pequenas. Mas ao lembrar que debaixo de algum daqueles telhados, você estava a respirar, perdi o ar e morri um grande pedaço. Como alguém tão pequeno pôde me esmagar tão gigantemente?

Esta tarde, contudo, esbarrei com um retrato seu. Olhei nos seus olhos e vi uma vida que não quero para mim. Senti toda dor reflexa que corrói o seu peito agora e finalmente entendi por que alguém tão grande é uma merda tão pequena.

Naquele instante, eu vivi um grande pedaço. E a minha vida jamais parou.




terça-feira, 23 de agosto de 2011

O momento

Um dia acordei e olhei-me no espelho:
já não era o mesmo.
Senti que o momento chegará.

Mas o momento ainda não chegou.

Eu já não era mais criança
e coloquei-me a pensar:
quando afinal fui uma?

Um dia encontrei amores
que jamais saíram do papel.
E amei as dores
que nunca cheguei a sentir.

O momento definitivamente não chegou.

Um dia acordei e o céu já não estava cinza,
mas também já não estava azul.
Percebi que aquele era apenas mais um dia.
O momento - este momento - ainda não chegara.

Foi nesse o dia então
que finalmente me apaixonei;
e ele era perfeito.
Mas o amor assim mesmo me escapara
então pensei:
o momento não era ainda.

Quando recordo
desses encontros que nunca vivi
dessa saudade de quem nunca esteve comigo
penso que talvez esteja sozinho no mundo
ou que o momento não é agora.

Então por que ele me beijou
e tivemos o perfeito amor
mesmo se esse amor
de fato nunca existiu?

É porque o momento não é agora.

Finalmente percebo meu erro.

O momento é a todo ele;
e o amor sempre existiu.